
Faro, 20 mar 2021 (Lusa) — Um ano depois do inÃcio do primeiro confinamento obrigatório para combater a propagação da pandemia de covid-19, o apoio alimentar no Algarve ainda é vital para que muitas famÃlias possam ter acesso a refeições diárias.
A dependência económica da região relativamente ao setor do turismo e as restrições nas viagens internacionais obrigaram muitas empresas a fechar portas, recorrer ao ‘lay-off’ ou a dispensar trabalhadores, aumentando o desemprego.
Ana (nome fictÃcio) trabalhava no aeroporto de Faro, mas foi dispensada em agosto e deixou de ganhar os “pouco mais de mil euros” que recebia por mês. Com 40 anos, dois filhos e contas para pagar, viu-se obrigada a ir “morar com familiares” e pedir apoio alimentar.
“Era complicado. FazÃamos refeições com salsichas com ovos, coisas mais básicas, porque o dinheiro não estica”, revela, enquanto aguarda à porta da instituição Refood, em Faro, para levantar os bens que leva para casa “duas vezes por semana”.
O desemprego obrigou-a também a retirar a filha do infantário para “poupar 250 euros”, mas, apesar da sua atual situação, foi surpreendida por uma carta da Segurança Social, em dezembro, a reenquadrar os filhos “do escalão A para o B”, o que implica uma “redução no abono de famÃlia” e no “apoio escolar” que recebia.
Os dois primeiros casos de pessoas infetadas em Portugal com o novo coronavÃrus foram anunciados em 02 de março de 2020, enquanto a primeira morte foi comunicada ao paÃs em 16 de março. No dia 19, entrou em vigor o primeiro perÃodo de estado de emergência, que previa o confinamento obrigatório, restrições à circulação e suspensão de atividade em diversas áreas.
A suspensão ou restrição de atividade em variados setores, como restauração, comércio, turismo e cultura, entre outros, elevou o número de falências em Portugal, agravou situações de precariedade e provocou aumento do desemprego.
As filas à porta da Refood, em Faro, tornaram-se uma constante em quase todas as tardes, com os beneficiários a aguardarem a sua vez para receber alimentos ou refeições já confecionadas num espaço há muito subdimensionado para as necessidades.
“Um ano depois, estamos piores que anteriormente. Apoiamos 373 pessoas e os pedidos de ajuda não param de chegar, mas temos conseguido corresponder com a ajuda da comunidade”, refere à Lusa a coordenadora da Refood em Faro, Paula Matias.
O que lhes tem valido é a doação direta, os voluntários que “cozinham em casa para doar”, os restaurantes que “abrem as portas para cozinhar uma vez por semana” e a “maior consciência” na entrega dos excedentes por parte dos hipermercados.
A Refood abriu mais “120 vagas em janeiro”, para responder ao aumento de pedidos, mas “mais de metade já foram preenchidas”, afirma. E as previsões para o futuro não são as melhores.
“Já temos planos alternativos. Estamos a preparar-nos para o pior, porque nos parece que, infelizmente, isto é o começo do que aà vem. Ainda não estamos com aquela crise económica que ouvimos falar, mas estamos a entrar nela”, alerta aquela responsável.
Júlia (nome fictÃcio) ocupou uma das novas vagas, depois de ter sido obrigada a pedir apoio quando a pandemia e um problema de saúde não lhe permitiram continuar a fazer as “habituais horas extras” que complementavam o seu rendimento.
“Continuo a trabalhar, mas não chega para as despesas. Daqui levo comida feita e para fazer, duas vezes por semana. Dou graças a Deus por terem aparecido na minha vida”, sublinha.
O filho com 19 anos “está a estudar para ser eletricista” e o trabalho que tinha num pizaria permitia “ajudar em casa”, mas com o novo confinamento “foi dispensado” e deixou de poder contribuir.
Há precisamente um ano, o Movimento de Apoio à Problemática da Sida (MAPS), em Faro, teve de alargar o apoio alimentar que antes apenas abrangia os sem-abrigo: “Estamos a receber cada vez mais pedidos principalmente de famÃlias com crianças. As pessoas não conseguem fazer face à s despesas, não se conseguem alimentar”, revela a vice-presidente.
Elsa Cardoso não antevê tempos melhores, mesmo com o desconfinamento, apontando os “antecedentes” de vários meses em que foram contraÃdas “dÃvidas”, que não serão recuperadas “por um ou dois meses de trabalho”.
Bia (nome fictÃcio) tem 33 anos, três filhos e o confinamento deixou-a sem trabalho, colocando o marido em ‘lay-off’. Com o rendimento reduzido e as contas a acumularem-se, teve de recorrer ao MAPS, que diz ser uma “ajuda enorme”.
“O meu marido recebe o salário mÃnimo e temos a renda de casa para pagar e três filhos para alimentar. Esta ajuda tem sido essencial”, desabafa. Antes da pandemia, conseguiam ter uma vida “estável”, “sem luxos”, mas que permitia “pagar as contas”. Neste momento, só “graças” à quela instituição lhes é possÃvel ter “comida na mesa”.
Maria (nome fictÃcio), veio do Brasil com a famÃlia há três anos e vive agora uma realidade semelhante, com a pandemia a lançá-la no desemprego e a obrigar o marido a ter de procurar trabalho na Bélgica. Com dois filhos – um com quatro e outra com 15 anos –, não teve outra alternativa se não pedir ajuda quando começou a “faltar leite” para o filho.
Sem apoio familiar, o seu maior medo é adoecer: “Eu não posso ficar doente. Se eu ficar, vai acontecer o quê com os meus filhos? A quem é que eles vão recorrer? O meu marido vive noutro paÃs, assim a gente vai para fundo”, suspira.
Aos serviços sociais da Câmara de Faro chegam muitos destes pedidos, que começaram a aumentar há um ano com o inÃcio do primeiro confinamento. No entanto, existe ainda muita vergonha em pedir ajuda, relata a responsável da divisão.
“Há pessoas que levam muito tempo até pedirem ajuda e só vêm em último recurso. Não têm que ter vergonha, hoje precisam eles, amanhã precisarão outros, ou nós. É importante que passem a palavra e se souberem de mais alguém, que os encaminhem para nós”, apela Ana Sofia Pina.
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