
Jerusalém, 21 abr 2020 (Lusa) — Os sobreviventes do Holocausto em Israel assinalam hoje o Dia da Memória do Holocausto numa situação que alguns comparam à que viveram durante a Segunda Guerra Mundial, sozinhos e com medo do desconhecido devido à covid-19.
Alguns destes sobreviventes, já bastante idosos, dizem que o isolamento atual e a sensação de perigo provocaram memórias difÃceis ligadas à s suas experiências de guerra.
Outros incomodam-se com a comparação feita com a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando os nazis assassinaram sistematicamente cerca seis milhões de judeus.
“Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Isto nunca se compara aos cinco anos que passei durante o Holocausto”, disse Dov Landau, de 92 anos, que sobreviveu a Auschwitz e a vários outros campos de extermÃnio, mas perdeu a sua famÃlia inteira.
“Esta é uma doença temporária que passará”, acrescentou Landau.
O Dia da Memória do Holocausto (Yom HaShoah) é uma das datas mais solenes do calendário israelita. Os sobreviventes geralmente participam de cerimónias de lembrança, compartilham histórias com adolescentes e participam em marchas em antigos campos de concentração na Europa.
Em vez disso, em plena crise do novo coronavÃrus, os sobreviventes hoje ficaram principalmente em ambientes fechados, nos seus apartamentos ou em casas de repouso.
A cerimónia central no paÃs, que normalmente atrai milhares ao memorial nacional do Holocausto Yad Vashem, foi pré-gravada sem audiência. Com o museu adjacente fechado devido a restrições de reuniões públicas, as comemorações e exposições estão disponÃveis na Internet.
Uma sirene soou hoje durante dois minutos à s 10:00 (08:00) para lembrar as vÃtimas do Holocausto. As pessoas interromperam o que estavam a fazer nas ruas e permaneceram paradas, com a cabeça baixa.
Mas este ano as ruas estão quase vazias. Cafés e restaurantes, que normalmente fecham para assinalar este dia, já estavam fechados. O paÃs está em isolamento há mais de um mês, tentando impedir a propagação de um vÃrus que já matou 181 pessoas e colocou um quarto do paÃs fora do trabalho.
Existem cerca de 180.000 sobreviventes do Holocausto em Israel e um número semelhante em outras partes do mundo.
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, falou à população, aos sobreviventes do Holocausto e, em particular, à s famÃlias das pessoas mortas no paÃs pela covid-19.
“Enfrentamos muitas dificuldades hoje em dia, mas de nenhuma maneira estas podem se comparar à extinção metódica e diabólica de seis milhões de judeus”, disse Netanyahu, afirmando a importância para o seu povo de soberania nacional e a capacidade de se defender.
A primeira morte pela covid-19 em Israel foi um homem que escapou dos nazis na Segunda Guerra Mundial, e pelo menos metade dos 14 residentes que morreram num lar de idosos particularmente afetado na cidade de Beersheba, no sul, eram sobreviventes do Holocausto.
Aviva Blum-Wachs, 87 anos, que sobreviveu à invasão nazi na sua cidade natal, Varsóvia, disse que a parte mais difÃcil da pandemia atual foi separar-se dos seus filhos, netos e bisnetos. No entanto, disse que não havia paralelo com a sua experiência de trauma na guerra.
“Estávamos fechados no gueto. Não tÃnhamos comida nem telefone. Havia um medo horrÃvel do que estava do lado de fora”, lembrou a mulher, na sua casa em Jerusalém.
“Não há nada a temer agora. Nós apenas temos de ficar em casa. É completamente diferente”, acrescentou Aviva Blum-Wachs.
O Yad Vashem convidou o público a participar na sua cerimónia anual de leitura de nomes de vÃtimas, gravando vÃdeos em casa e compartilhando em suas plataformas da rede social.
“Embora as circunstâncias deste ano sejam únicas, a mensagem ainda é a mesma: nunca esqueceremos os seus nomes”, disse Avner Shalev, presidente do Yad Vashem.
Pela primeira vez, a anual “Marcha dos Vivos”, que atrai jovens de todo o mundo para o campo de extermÃnio de Auschwitz-Birkenau, no sul da Polónia, também foi cancelada, e uma lembrança virtual foi lançada.
“Fisicamente, podemos não estar lá, mas estamos a marchar virtualmente”, disse Shmuel Rosenman, presidente mundial da “Marcha dos Vivos”.
“Continuaremos a educar as próximas gerações”, disse Shmuel Rosenman
Para os frágeis sobreviventes do genocÃdio, os dias de hoje estão a ser principalmente focados em sobreviver ao novo coronavÃrus.
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