
Tavira, 01 abr 2020 (Lusa) — Um ‘chef’ algarvio com estrela Michelin cozinha diariamente duas centenas de refeições para famÃlias desfavorecidas e crianças carenciadas numa altura que a pandemia da covid-19 penaliza muitos agregados familiares.
O ambiente e os uniformes aparentam o ambiente de um restaurante de luxo mas, na verdade, trata-se da cozinha do Centro de Apoio Integrado de Crianças do centro humanitário de Tavira da Cruz Vermelha Portuguesa, no distrito de Faro.
Um grupo de oitos cozinheiros e ajudantes divide as tarefas para garantirem que, das suas mãos, saem as quase duas centenas de refeições por dia que são servidas à s crianças do centro ou devidamente acondicionadas em caixas para serem distribuÃdas pela Rede de Emergência Alimentar.
A liderar este grupo está o ‘chef’ Rui Silveira, responsável pelo restaurante Vistas, em Vila Nova de Cacela, no concelho de Vila Real de Santo António, que em 2019 ganhou a sua primeira estrela Michelin.
Entre a preparação da refeição do dia revela à Lusa que o restaurante teve de fechar “por razões óbvias” com a equipa a ficar parada em regime de ‘lay-off’ mas, ao aperceberem-se que “havia pessoas a precisarem de ajuda, toda a equipa “decidiu aderir voluntariamente”, revela. Surgiu o projeto ‘Alimentar a Saúde’.
De inÃcio, a intenção era produzir refeições “para o hospital ou vários hospitais”, mediante a necessidade, revela Rui Silveira. Começaram por utilizar a cozinha do restaurante, mas o convite da Cruz Vermelha de Tavira tornou possÃvel “expandir a iniciativa e começar a cozinhar também para as crianças e para famÃlias desfavorecidas”.
Após a implementação das medidas de combate à pandemia da covid-19, as crianças que frequentavam a creche do centro foram para casa e a cozinha encerrada, mantendo-se apenas a funcionar a Casa de Acolhimento que alberga 18 crianças e adolescentes.
 “Quando soubemos da iniciativa do ‘chef’, resolvemos aderir e disponibilizar as nossas instalações para que a oferta possa ser aumentada”, adiantou o diretor do centro humanitário de Tavira da Cruz Vermelha Portuguesa, Manuel Marrafa.
A equipa de Rui Silvestre passou a garantir o almoço e jantar para as crianças que permanecem institucionalizadas e uma refeição diária para os lares e outras entidades.
“Limitamo-nos a produzir as quantidades que conseguimos e cabe à Rede de Emergência Alimentar a gestão e a quem são entregues”, realça o ‘chef’.
Diariamente preparam menus completos com sopa, prato vegetariano, de carne ou peixe e uma sobremesa, numa experiência que parece agradar ao palato dos mais novos. Uma das adolescentes do centro revela à Lusa que nunca tinha experimentado tantos “sabores diferentes”, a “surpresa” da sopa de alface, assim como “a variedade de temperos” utilizados na comida.Â
Rui Silvestre adianta que o objetivo da cozinha é “preparar pratos com bons produtos, da forma mais correta possÃvel” e é precisamente isso que estão a fazer. “Conseguir alimentar as pessoas de uma forma correta para que tenham todos os dias uma refeição cuidada” defende.
O projeto não tem prazo, mantendo-se “até que seja possÃvel”, e enquanto houver voluntários e apoio de várias instituições.
De momento estão a trabalhar “quase exclusivamente” com a Makro, mas a esperança é que “mais empresas se juntem com doação de produtos”, para poderem “continuar isto durante muito mais tempo”.
 “Espero que depois de tudo isto as pessoas saiam diferentes a perceber que precisamos uns dos outros”, conclui.
Num outro ponto da cidade de Tavira, a Cruz Vermelha garante o apoio a pessoas em situação precária e sem abrigo no Refeitório Social com mais de 300 refeições diárias, agora entregues pela janela, já que o plano de contingência obriga a manter a porta fechada.
É à porta que a Lusa encontra Cosmin Marusan, cidadão romeno de 26 anos no segundo dia que recorre ao refeitório social. Há dois anos que trabalhava como jardineiro “sem contrato de trabalho” revela. Com a pandemia foi “dispensado pelo patrão” e viu-se obrigado a “pedir ajuda”. Só depois de referenciado pela Câmara de Tavira é que começou a receber apoio alimentar, pelo qual diz “estar muito agradecido”.
Com o saco da comida que acabou de receber, numa mão, e um cachorrinho pequeno que resgatou da rua, na outra, segue para casa, com o regresso marcado para amanhã à mesma hora, numa viagem que passou a marcar a sua rotina diária.
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