
Guayaquil, Equador, 13 abr 2020 (Lusa) — Centenas de cadáveres estão em casa devido à falta de espaço nas morgues e nos serviços hospitalares da cidade de Guayaquil, capital económica do Equador, que se tornou o sÃmbolo do caos causado pela pandemia da covid-19.
O Equador — que tem 17,5 milhões de habitantes — é, depois do Brasil, o segundo paÃs mais afetado da América Latina pela pandemia da covid-19, causada pelo novo coronavÃrus.
Oficialmente, existem 7.500 casos e 333 mortes relacionados com a covid-19.
O Governo do Equador já declarou a emergência sanitária e o encerramento das fronteiras.
Apenas em Guayaquil, um porto de 2,7 milhões de habitantes na costa do PacÃfico (sudoeste), Jorge Wated, responsável de uma força especial enviada há três semanas pelo Governo para recolher os cadáveres, declarou que “o número (de corpos) recuperados em habitações passou os 700”.
No total, essa força especial policial e militar recolheu 771 cadáveres em residências, aos quais foram adicionados aos 631 corpos recolhidos em hospitais com morgues cheias, disse Wated na rede social Twitter, sem especificar exatamente as causas dessas cerca de 1.400 mortes.
Segundo dados oficiais, a provÃncia de Guayas concentra 72% dos casos de coronavÃrus, e Guayaquil, a sua capital, sozinha possui cerca de 4.000 pacientes de covid-19.
A força policial e militar especial foi criada após o colapso dos serviços funerários de Guayaquil, que prejudicaram funerais e enterros, enquanto um recolher obrigatório diário de 15 horas decorre em todo o paÃs.
Durante dias, centenas de cadáveres foram deixados em casa ou mesmo nas ruas, envoltos em plástico preto. Os moradores transmitiram vÃdeos de corpos abandonados e pedem ajuda nas redes sociais para as famÃlias que desejam enterrar os seus mortos.
O Governo está a providenciar os enterros quando os familiares não puderam fazê-lo por várias razões, inclusive financeiras. Jorge Wated disse no domingo que os restos de 600 pessoas identificadas foram enterrados.
Os enterros ocorrem sem os parentes das vÃtimas. Os nomes dos mortos são publicados num portal eletrónico criado pelo governo para informar aos familiares onde seus mortos estão enterrados.
Os vizinhos do cemitério de Pascuales difundiram vÃdeos que mostram camiões a rebocar contentores refrigerados entrando no local escoltados pela polÃcia.
Devido à falta de espaço nas morgues, o municÃpio de Guayaquil tinha contentores colocados perto de hospitais e da polÃcia forense, que servem como depósito para cadáveres.
De acordo com declarações de Wated há quase duas semanas, os especialistas médicos estimavam “que as mortes por covid-19 atingirão nos próximos meses entre 2.500 e 3.500, somente na provÃncia de Guayas”.
O Presidente do Equador, Lenin Moreno, anunciou no domingo que havia decidido reduzir pela metade o seu salário e o de outros funcionários do Estado diante da crise económica ligada à pandemia e à queda nos preços internacionais do petróleo.
Atualmente, o Equador está privado das exportações de petróleo devido a ruturas nos seus dois oleodutos, cuja reparação levará um mês, de acordo com as autoridades.
Ao abrigo de um programa com o Fundo Monetário Internacional, o paÃs pediu na semana passada uma moratória no pagamento de 811 milhões de dólares em juros sobre sua dÃvida pública, que se aproxima de 41,8 mil milhões de dólares, a fim de libertar recursos para lutar contra coronavÃrus.
O paÃs passou por uma grave crise social em outubro (oito mortos) após a duplicação dos preços dos combustÃveis (depois suspenso) e a supressão de subsÃdios.
Moreno transferiu o Governo para Guyaquil e acusou o seu antecessor e ex-aliado Rafael Correa (2007-2017) de “ativar” um “plano de desestabilização” ajudado pela Venezuela.
O novo coronavÃrus, responsável pela pandemia da covid-19, já provocou mais de 112 mil mortos e infetou mais de 1,8 milhões de pessoas em 193 paÃses e territórios.
Dos casos de infeção, quase 375 mil são considerados curados.
Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.
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