Cineastas moçambicanos dizem que cinema serviu de sensibilização e mobilização

Maputo, 29 out 2025 (Lusa) — Os cineastas moçambicanos João Ribeiro e Sol de Carvalho defenderam em entrevista à Lusa que o cinema foi usado como “arma de sensibilização e educação”, mas também de mobilização de apoio às lutas de libertação nos países africanos.

“O cinema, de uma maneira geral, sempre foi utilizado como uma espécie de arma também, não é? Como uma forma de educação, uma forma de sensibilização”, disse João Ribeiro, à margem dos Encontros do Património Audiovisual, que decorrem esta semana em Maputo, centrados nos 50 anos das independências dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP).

“É preciso perceber que, nessas alturas, nos anos 60, nos nossos países, para além da rádio, não havia outra forma de comunicação que não fosse o cinema”, acrescentou.

Segundo o cineasta e produtor, de 62 anos, o cinema “foi um instrumento de educação, de sensibilização e de mobilização”, tanto durante a luta de libertação como nos primeiros anos após a independência, “quando era necessário educar e mobilizar o povo para uma nova forma de viver”.

Já Sol de Carvalho, 72 anos, recordou que os filmes produzidos naquele período tiveram também um papel estratégico na diplomacia das lutas dos países africanos de língua portuguesa.

“Era importante tentar também estabelecer contactos e amizades com os países ocidentais”, explicou, em entrevista à Lusa, acrescentando que “alguns destes filmes foram feitos para se mostrar a esses países que havia uma luta que estava a ocorrer, que era uma luta organizada”.

Sol de Carvalho destacou ainda que, à época, “a comunicação era feita basicamente pela rádio” e que “esses filmes, muitas vezes, eram produzidos em inglês ou francês antes mesmo do português”, de modo a circular junto de organizações e governos estrangeiros sensíveis às causas africanas.

“A Jugoslávia fez a maior parte dos filmes moçambicanos da luta armada”, recordou o cineasta, que também participa nos Encontros do Património Audiovisual, evento organizado pela Associação dos Amigos do Museu do Cinema em Moçambique, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian. Até sexta-feira, reúne nesta terceira edição investigadores, cineastas e técnicos de vários países, revisitando a história do cinema como instrumento político e cultural nas lutas de libertação e na construção das identidades africanas.

Autor de várias produções premiadas, João Ribeiro realizou “Avó Dezanove e o segredo do soviético”, baseado na obra do escritor angolano Ondjaki, premiado como melhor filme no Black International Cinema Berlin (2020) e galardoado também em festivais do Quénia e Cabo Verde.

Já Sol de Carvalho, um dos mais influentes cineastas moçambicanos, soma 16 prémios internacionais, incluindo o de melhor filme de ficção no Festival de Cinema Independente de Nova Iorque (2019) e o de melhor filme dramático no International Black & Diversity Film Festival (Canadá) com “Mabata Bata”, inspirado numa obra de Mia Couto.

Para João Ribeiro, revisitar o papel do cinema durante as independências “é uma forma de trazer o passado para o presente e compreender a formação da identidade nacional”.

“A independência não é só a luta política, é também social e cultural, e tudo isso faz parte da nossa vivência”, afirmou.

Sol de Carvalho, por sua vez, destacou a importância de refletir sobre o percurso histórico das independências e os seus desdobramentos.

“Acho que é importante a gente conhecer, estudar, ter a nossa ideia. Às vezes muda. A história não é uma coisa fixa, é dinâmica”, disse, defendendo que “é importante mostrar” para que se saiba “o que aconteceu”.

Meio século após as independências, o cineasta lamentou a falta de políticas públicas de preservação audiovisual em Moçambique.

“Estamos a discutir a história do nosso país. A história das imagens do nosso país. Está aqui alguém do Governo?”, questionou, considerando que o esforço de quem investiga e preserva este legado “devia ser mais aproveitado e valorizado”.

Sol de Carvalho alertou também para a inexistência de políticas de digitalização e conservação do acervo cinematográfico nacional.

“Não há verdadeiramente uma política de preservar a imagem grande, por exemplo, digitalizar todo o processo antigo do que foi feito (…) portanto, é urgente fazer isso, não há políticas de apoio”, frisou, lamentando que recuperar técnicas e equipamentos antigos é hoje “quase impossível”.

EYMZ // JMC

Lusa/Fim