
Lisboa, 15 abr 2024 (Lusa) — Cientistas da Universidade da Califórnia (Estados Unidos) revelaram uma nova estratégia para a vacina baseada em RNA que é eficaz contra qualquer estirpe de um vÃrus e segura mesmo para bebés e para quem tem o sistema imunitário enfraquecido.
A vacina, como funciona e uma demonstração da sua eficácia em ratos são descritas num artigo publicado hoje na revista cientÃfica Proceedings of the National Academy of Sciences, indica um comunicado da Universidade da Califórnia – Riverside (UCR).
“O que quero destacar em relação a esta estratégia de vacina é que ela é ampla (…) aplicável a qualquer número de vÃrus, (…) eficaz contra qualquer variante de um vÃrus e segura para um amplo espetro de pessoas. Esta pode ser a vacina universal que procurávamos”, disse Rong Hai, virologista da UCR e autor do artigo, citado no comunicado.
Todos os anos, os investigadores tentam prever as quatro estirpes do vÃrus da gripe com maiores possibilidades de prevalecer na próxima temporada da doença e a vacina atualizada deve ser tomada anualmente.
O mesmo aconteceu com as vacinas contra o SARS-CoV-2, coronavÃrus que causa a covid-19, que foram sendo reformuladas para atingir subvariantes das estirpes dominantes em circulação.
Ao visar uma parte do genoma viral que é comum a todas as estirpes de um vÃrus, a nova estratégia eliminará a necessidade de criar vacinas diferentes.
“Tradicionalmente, as vacinas contêm uma versão viva, morta ou modificada de um vÃrus. O sistema imunológico do corpo reconhece uma proteÃna no vÃrus e organiza uma resposta imunológica”, produzindo “células T que atacam o vÃrus e impedem a sua propagação” e “células B ‘de memória’ que treinam o sistema imunológico” para evitar futuros ataques.
A vacina agora revelada “utiliza uma versão viva modificada de um vÃrus”, mas “não depende” da referida resposta imunitária — por isso pode ser tomada por bebés com um incipiente sistema imunitário ou por imunocomprometidos -, mas sim de pequenas moléculas de RNA que silenciam os genes causadores da doença.
“Um hospedeiro — uma pessoa, um rato, quem quer que esteja infetado — produzirá pequenos RNAs interferentes como resposta imunológica à infeção viral. Esses RNAi então abatem o vÃrus”, explicou Shouwei Ding, professor de microbiologia da UCR e principal autor do artigo, citado no comunicado.
Dado que os vÃrus causam doenças porque produzem proteÃnas que bloqueiam a resposta de RNAi do hospedeiro, a criação de um vÃrus mutante que não consegue produzir a proteÃna para suprimir o RNAi, enfraquece o vÃrus.
“Ele pode-se replicar até certo ponto, mas depois perde a batalha para a resposta do RNAi do hospedeiro”, disse ainda Ding, acrescentando: “Um vÃrus enfraquecido desta forma pode ser usado como vacina para reforçar o nosso sistema imunitário RNAi.”
A nova estratégia foi testada em ratos mutantes, sem células T e B, e descobriu-se que com uma injeção de vacina os ratos ficavam protegidos de uma dose letal do vÃrus não modificado durante pelo menos 90 dias (alguns estudos mostram que nove dias em ratos equivalem aproximadamente a um ano humano). Mesmo os ratos recém-nascidos produzem pequenas moléculas de RNAi, pelo que a vacina também os protegeu.
A UC Riverside já obteve uma patente nos Estados Unidos para esta tecnologia de vacina RNAi e o próximo passo dos investigadores é criar uma vacina contra a gripe para proteger as crianças.
“Se tivermos sucesso, elas deixarão de depender dos anticorpos das mães”, referiu Ding.
Os cientistas dizem ainda ser pequena a hipótese de um vÃrus ter uma mutação para evitar esta estratégia de vacinação.
“Os vÃrus podem sofrer mutações em áreas não visadas pelas vacinas tradicionais. No entanto, neste caso, o alvo dos milhares de pequenos RNAs é todo o seu genoma. Eles não podem escapar “, disse Hai.
Com um processo de “corta e cola” da estratégia, os investigadores acreditam igualmente poder fazer uma vacina única para qualquer tipo de vÃrus.
“Existem vários patógenos humanos bem conhecidos, como o dengue e o SARS. Todos eles têm funções virais semelhantes”, pelo que a nova estratégia “deve ser adequada a esses vÃrus”, adiantou Ding.
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