
Pequim, 09 nov (Lusa) – A China tem mais de 50 milhões de casas vazias, segundo um estudo a nÃvel nacional prestes a ser publicado, num dos efeitos mais visÃveis do desperdÃcio gerado por uma década de crescimento assente na construção.
Cerca de 22% do imobiliário urbano na China continua desocupado, revela Gan Li, professor na Universidade de Economia e Finanças de Chengdu, sudoeste da China, e responsável pelo estudo.
“Não há outro paÃs no mundo com uma taxa de desocupação tão alta”, diz o académico, citado pela agência Bloomberg.
Gan considera que um cenário de “pesadelo” pode ocorrer caso o mercado imobiliário começe a apresentar debilidades, o que levaria os proprietários a lançarem-se numa corrida de vendas, levando a uma queda abrupta dos preços.
“A China seria atingida por uma inundação de casas a entrarem no mercado”, descreve.
Milhares de investigadores participaram do estudo, designado China Household Finance Survey, e que abrange um total de 363 condados, distribuÃdos por todo o paÃs.
A taxa de desocupação é praticamente a mesma apurada na edição anterior do estudo, em 2013, de 22,4%, segundo Gan.
Na altura, Gan estimou 49 milhões de casas vazias em todo o paÃs. “Hoje, definitivamente há mais de 50 milhões”, diz.
Casas de férias ou habitações vazias de trabalhadores migrados em outras cidades contribuem para o fenómeno, mas são sobretudo as compras para investimento que mantêm a taxa de ocupação alta.
Trata-se de um dos efeitos mais visÃveis do desperdÃcio gerado por um modelo de crescimento económico assente na construção.
“Desde a crise financeira global [em 2008], o crescimento da economia chinesa tem assentado no investimento alimentado por dÃvida”, explica Dinny McMahon, autor do livro “China Great Wall of Debt” (“A Grande Muralha de DÃvida da China”), estimando que o paÃs criou, nos últimos dez anos, “63% do novo dinheiro a nÃvel global”.
No espaço de uma década, enquanto as economias desenvolvidas estagnaram, a China construiu a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, mais de oitenta aeroportos ou dezenas de cidades de raiz, alargando a classe média chinesa em centenas de milhões de pessoas.
No entanto, segundo a agência suÃça Bank for International Settlements (BIS), durante o mesmo perÃodo, a dÃvida chinesa quase duplicou, para 257% do Produto Interno Bruto (PIB).
Um relatório publicado esta semana pela agência de avaliação de risco Standard & Poor’s (S&P) indica que o preço do imobiliário na China atingiu o seu valor máximo e pode cair até cinco por cento, em 2019.
A agência adverte que as cidades pequenas são “muito mais vulneráveis” a uma possÃvel desaceleração, que poderá fazer com que passem “rapidamente” de “motores de crescimento” a “travões ao crescimento”.
Para os promotores imobiliários chineses, os grandes riscos são a “liquidez e refinanciamento”, lê-se no relatório, que aponta para um “panorama de financiamento mais desfavorável em anos”.
As empresas, que precisam de refinanciar dÃvidas próximas de vencer, procurarão vender o produto o mais rápido possÃvel, reduzindo os preços se necessário, visando obter liquidez, descreve.
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