Cheias levaram cana-de-açúcar mas quem vende nas ruas de Maputo resiste

Maputo, 15 jun 2026 (Lusa) — Catarina Floria, vendedora de cana-de-açúcar em plásticos nas ruas de Maputo, queixa-se de prejuízos após a destruição de canaviais nas cheias de janeiro, mas prefere “morrer” no negócio a voltar a ser empregada.

No passeio central da avenida 24 de Julho, uma das mais movimentadas da capital moçambicana, Catarina, 33 anos, corre diariamente pela estrada, a esquivar-se de carros para vender cana-de-açúcar aos automobilistas, um risco menor, comparado ao trauma do emprego.

“Mesmo ir trabalhar não me dão dinheiro, não me dá comida (…). Eu queria morrer lá sem comer. Você cozinha bem, mas pessoa comer ali, sem te dar comida, nem mata-bicho. É melhor fazer isso aqui, é melhor morrer aqui na estrada e não lá (…). Vale a pena morrer aqui na estrada a vender cana”, diz à Lusa a vendedora, que chegou a Maputo há quatro anos, proveniente da província da Zambézia, no centro de Moçambique.

Enquanto descasca a cana-de-açúcar, corta em pequenos pedaços e mete em plásticos para poder ser mastigada na hora, Catarina recorda o trabalho como doméstica, cujo patrão não dava “dinheiro, nem comida”, o que a levou a abandonar o emprego e a apostar no negócio de peixe, a convite de uma amiga, e depois o de frutas, que também trocou pelas canas.

Hoje, a mulher arrisca-se entre os carros e prefere “morrer na estrada” a ser empregada, pois tem de custear os estudos de três crianças, duas das quais filhas dos seus falecidos irmãos.

“Quando o carro está a vir e [o motorista] diz que quer cana, você tem de correr com o plástico (…) correr mesmo para conseguir qualquer coisa”, explica, contando que é preciso correr a controlar as viaturas, que a qualquer momento podem avançar quando o semáforo abre, sem antes terminar a transação.

A faca afiada é o segredo do negócio da cana-de-açúcar, refere Catarina Floria, que relata ferimentos no início da atividade, mas cuja técnica aprimorou e hoje aplica golpes à cana como ninguém, para não deixar clientes à espera.

Cada plástico é vendido por 25 meticais (0,33 euros), faturando por dia até 300 meticais (4,02 euros), mas o negócio já não rende como antes, desde que as cheias do início do ano destruíram campos de plantação de cana-de-açúcar, obrigando ao aumento dos preços do produto.

“Lucro não é muito porque esse ano, com o problema de chuva, a cana não saiu bem e aumentou o preço (…). Mas essa semana piorou, não compram muito por causa de dinheiro, não tem”, explica.

O molho de apenas 12 galhos de cana passou a custar entre 500 e 600 meticais (6,71 e 8,05 euros) no mercado a grosso, quando antes era vendido por 300 meticais (4,02 euros), levando os vendedores a ajustes para manter o negócio.

“A cana está cara agora, por causa da chuva. Aumentaram o preço comparado ao ano passado”, queixa-se por sua vez Adélia Pascoal, 35 anos, que partilha o passeio central da avenida 24 de Julho com Catarina.

Apesar dos prejuízos, a vendedora de cana-de-açúcar prefere continuar no negócio para ajudar o marido nas despesas, além de enviar dinheiro para a mãe, que cuida dos seus três filhos em Inhambane, sua província natal: “vale a pena [vender] a cana porque sai dinheiro, o pouco me ajuda, é muito”.

A mesma queixa repete-se nos vendedores de cana-de-açúcar que andam em grupos de quatro, empurrando carrinhos de mão pelas ruas e avenidas de Maputo.

Os ambulantes também diminuíram as quantidades medidas nos plásticos para fazer face à subida de preços e à reduzida procura.

“Plástico vende a 20 meticais [0,26 euros] e as pessoas nem compram porque estão a dizer que está caro e no plástico não enche, enquanto nós também queremos aquele tal pouco, então não está fácil”, queixa-se Fidélio Paulito, 24 anos, que apostou na venda de cana após largar o trabalho de serralheiro, no quarto ano de serviço.

Como Catarina Floria, Fidélio abandonou o trabalho porque não recebia o salário devidamente e viu no negócio uma alternativa para ter dinheiro e “enviar alguma coisa para casa”, em Inhambane, com lucros agora reduzidos devido às chuvas.

“A chuva é que fez todo esse problema. Não há dinheiro mesmo”, lamenta o jovem, que já esteve na África do Sul, mas regressou e abraçou o negócio em que ganha pelo menos 100 meticais (1,34 euros) por dia para “não roubar coisa de dono”.

“Tentei procurar um trabalho, mas vi que não sai porque trabalha-se e às vezes não recebe, enquanto aqui aquele tal pouco que consigo fazer para mim é muito”, afirma.

As cheias em Moçambique tomaram por completo os canaviais, obrigando também os produtores de cana-de-açúcar a recorrer a outros terrenos menos afetados para garantirem o negócio e os clientes, além de associarem o dinheiro para obter maiores quantidades, relata à Lusa um grupo de mulheres proprietárias de campos de produção de cana em pequena escala no distrito da Manhiça, a cerca de 80 quilómetros da cidade de Maputo.

As mulheres, que revendem o produto no mercado Vulcano, em Maputo, temem as chuvas que ainda se registam na capital, que podem estragar a cana já à venda: “este ano é pior devido às chuvas e inundações, nos quebrou muito”.

“[Apesar dos novos preços], não vou deixar, hei de vir sempre comprar porque compro por gostar do sumo”, tranquiliza as senhoras Banildo, 25 anos, comprador fiel de cana-de-açúcar, um substituto do álcool que ninguém consome na sua casa.

O negócio de venda de cana-de-açúcar domina por esta altura a cidade de Maputo, com vendedores ambulantes e outros em pontos fixos espalhados pela capital, que, com facas afiadas à mão e agilidade, arriscam-se a correr atrás de carros para sobreviver.

Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetados pelas alterações globais, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre anualmente entre outubro e abril.

*** Viriato Simbine (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***

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