
Nampula, Moçambique, 21 nov 2025 (Lusa) — Cerca de 30 mil pessoas estão deslocadas devido aos ataques de rebeldes no distrito de Memba, na província de Nampula, norte de Moçambique, anunciou o governador, referindo que o drama humano é devastador.
“O número de pessoas deslocadas já ascende a cerca de 30 mil. São vidas em rutura, famílias desfeitas, crianças arrancadas à normalidade, comunidades inteiras em fuga perante a violência”, disse o governador de Nampula, Eduardo Abdula, durante campanha de doação de alimentos para as vítimas dos ataques em Memba, citado hoje pela comunicação social.
Segundo o responsável, a situação de ataques de grupos armados em Memba “agrava-se a cada dia, cada hora e cada segundo”, o que condiciona a realização de exames escolares de cerca de 4.000 alunos, iniciados na quinta-feira em todo o país.
“O drama humano que ontem nos parecia de dimensão já alarmante, revelou-se hoje ainda mais devastador”, referiu Abdula, acrescentando que os alunos afetados poderão realizar os exames na segunda época.
“Nesta altura é impossível pensarmos nos exames. (…) Dada esta situação e dos traumas que sofreram, temos que dar uma oportunidade para se prepararem”, acrescentou o governador de Nampula.
Eduardo Abdula agradeceu a “pronta, generosa e altamente significativa” doação de produtos para as famílias deslocadas, afirmando que a escalada de violência armada continua e, por isso, exige uma resposta “proporcional à urgência e à gravidade do momento”.
“Que este momento difícil nos encontre unidos, firmes no compromisso com a vida, com a dignidade humana e com a solidariedade que sempre caracterizou o povo de Nampula. Unidos continuaremos a ser a força que ampara quem precisa e a esperança que ilumina quem perdeu tudo”, concluiu o governador.
Pelo menos cinco pessoas morreram nos recentes ataques extremistas em Memba, disse o governador, na quarta-feira, alertando que o número pode aumentar, já que falta de informação sobre as zonas ainda inacessíveis.
A Organização das Nações Unidas estimou, também na quarta-feira, que cerca de 128 mil pessoas tenham fugido, numa semana, das povoações de Lúrio e Mazula, em Memba, após ataques de grupos extremistas.
De acordo com um relatório do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), os ataques coordenados de grupos armados não estatais desde 10 de novembro intensificaram-se nos distritos de Memba e Eráti, Nampula.
Segundo a agência da ONU, os primeiros relatos indicam que algumas casas e uma escola foram incendiadas, propriedades foram saqueadas e civis mortos, feridos ou sequestrados: “estão em curso deslocamentos populacionais, estima-se que 80% da população de Lúrio e Mazula (aproximadamente 128.000 pessoas) tenha fugido para áreas de mata próximas ou para outros distritos”.
“O medo de novos ataques e a persistente insegurança continuam a desencadear novos movimentos, à medida que se espalham rumores da presença de grupos armados não estatais pelas áreas afetadas”, lê-se no documento.
O OCHA descreve ainda que informações no terreno relatam movimentos populacionais significativos em todo o distrito de Memba, com moradores de bairros vizinhos a concentrarem-se em Lúrio sede, enquanto algumas famílias atravessam o rio Lúrio em direção ao distrito de Mecúfi, na província de Cabo Delgado, que enfrenta a violência armada desde outubro de 2017, particularmente nas aldeias de Munariki e Natuco.
Elementos associados ao grupo extremista Estado Islâmico reivindicaram a autoria de pelo menos dois ataques na província moçambicana de Nampula, provocando a morte de cinco cristãos, noticiou a Lusa na segunda-feira.
Na reivindicação, feita através dos canais de propaganda do grupo, refere-se que num dos ataques a uma aldeia “capturaram e mataram quatro cristãos a tiro” e que queimaram uma igreja. Noutro local assumiram que mataram um cristão e queimaram duas casas.
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