CCB recebe esta semana peça na qual público decide se protagonista é “um inimigo do povo”

Lisboa, 01 jul 2026 (Lusa) — A encenadora brasileira Christiane Jatahy e o ator Wagner Moura apresentam esta semana em Lisboa uma peça que criaram em conjunto, na qual um júri de espectadores decide se o protagonista é ou não “um inimigo do povo”.

“Um Julgamento — Depois do Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen”, que terá apresentações no Centro Cultural de Belém entre sexta-feira e domingo, “não é uma adaptação” de “Um inimigo do povo” que Ibsen escreveu em 1882, salientou a encenadora hoje, numa conferência de imprensa em Lisboa, referindo tratar-se de “um novo texto, uma possibilidade sobre o depois” da história do texto do dramaturgo norueguês.

Na peça de Ibsen, a personagem principal, Dr. Thomas Stockmann, tenta alertar para a contaminação das águas das termas da sua cidade, na costa da Noruega. As autoridades locais, temendo o impacto financeiro na cidade com o encerramento do espaço ao turismo, hostilizam Stockmann, declarando-o um inimigo do povo.

Segundo Christiane Jatahy, na peça que chega agora a Lisboa, depois de ter sido apresentada em Amesterdão e no Brasil, “95% do texto é novo e o resto é Ibsen”.

“O passado forma os personagens e a peça, que é passada completamente hoje, como se Ibsen tivesse escrito ‘Um inimigo do povo’ há seis anos. E [a história] acontece em cada lugar onde levamos o espetáculo”, referiu.

Em “Um Julgamento” há em palco um tribunal, mas não no sentido literal. No entanto, “11 espectadores vão decidir se Thomas Stockmann [personagem interpretada por Wagner Moura] é ou não um inimigo do povo”.

A possibilidade de participar na peça é oferecida ao público no momento de entrada na sala, altura em que são distribuídas 50 pulseiras aos interessados.

Entre os 50, são sorteados onze, que estarão em palco, “mas não são expostos”.

Os jurados escrevem as perguntas, que não são identificadas, às quais a personagem de Wagner Moura responde. Além disso, explicou ainda a encenadora, “a votação sobre a inocência ou culpa de Thomas é anónima”.

Em cada cidade onde a peça é apresentada há um ator ou uma atriz local que coordena o júri. Em Portugal, foi escolhida a atriz Cleo Diára.

Wagner Moura disse que as perguntas são respondidas de improviso, visto que são feitas no momento, e para dar as respostas regressa à obra de Ibsen.

O ator e a encenadora contaram que o projeto que os trouxe agora a Portugal “começou há 20 anos”, quando Christiane Jatahy viu Wagner Moura, “um ator excecional desde sempre”, em cena.

“Eu tinha de trabalhar com ele”, partilhou, contando que a vida profissional de ambos acabou por ir adiando o projeto.

“Reencontrámo-nos há dois anos e decidimos: ‘É agora’. Aí começou um diálogo muito interessante, sem pressão”, descreveu a encenadora, com o ator a reforçar que “foram dois anos a fazer isso, a dialogar”.

A escolha de trabalharem a partir da peça de Ibsen junta pelo menos dois fatores: “Wagner é muito apaixonado por ‘Um inimigo do povo’ e eu tinha muito a ideia de trabalhar sobre irmãos, de como a polarização pode irromper a família”, disse Chistiane Jatahy.

Wagner Moura reforçou que queria “muito” trabalhar a peça de Ibsen, porque sempre foi “muito louco” por ela, “e com a passagem do tempo mais ainda”.

“Um Julgamento” visa, entre outros, “chamar as pessoas a decidirem e pensarem”.

A peça, à semelhança da obra de Ibsen, aborda temas como ecologia, a relação entre política e ciência, o papel da imprensa, as ‘fake news’ e “os discursos que oscilam entre a liberdade de expressão e a ameaça à democracia”.

Além de Wagner Moura, “Um Julgamento — Depois do Inimigo do Povo, de Henrik Ibsen”, conta também no elenco com Danilo Grangheia e Julia Bernat, em palco, Marojrie Estiano, Jonas Bloch e Salvador Moura, em filme.

Esta peça marca também o regresso de Wagner Moura ao teatro. A última vez que tinha subido a um palco foi em 2009, em “Hamlet”.

“O Teatro é um compromisso muito importante, muito sagrado, para mim. Só faço quando me mobiliza muito”, partilhou.

Com uma carreira iniciada no teatro, em Salvador da Bahia, Wagner Moura ganhou reconhecimento internacional ao interpretar Pablo Escobar na série “Narcos”, da Netflix. No ano passado foi distinguido no Festival de Cannes com o prémio de Melhor Ator pela sua interpretação no filme “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, papel que lhe valeu também um Globo de Ouro e uma nomeação aos Óscares.

“Os atores eventualmente precisam de voltar ao teatro. Eu preciso. Há no teatro uma ligação muito forte com a natureza do que é para mim ser ator”, disse.

As sessões de “Um Julgamento”, uma coprodução entre o CCB, o Holland Festival (dos Países Baixos), o Festival d’Avignon (França), o Edinburgh International Festival (Reino Unido) e o centro de artes DeSingel (Bélgica), estão praticamente esgotadas.

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