Cantora e ativista moçambicana Selma Uamusse dá voz a áudio-livro de Mia Couto

Lisboa, 16 fev 2026 (Lusa) – A cantora e ativista moçambicana Selma Uamusse dá voz ao mais recente áudio-livro do escritor Mia Couto, “A Cegueira do Rio”, e considera que este formato editorial abre uma nova possibilidade de aumentar o número de “ouvintes de literatura”.

Em declarações à Lusa a partir de Cabo Verde, Selma Uamusse, presidente da ONG Helpo, refere que “a literatura nem sempre está acessível a todas as pessoas” e aponta a importância dos áudio-livros para quem não pode ler.

Considerando que o áudio-livro “faz parte do futuro mas que não é só o futuro”, Selma Uamusse refere que fica “contente em poder fazer parte desse futuro, mas que ele não se encerre só nessa escuta”.

“Principalmente para quem tem a possibilidade de ler em papel, que ele não se encerre, mas que seja mais uma modalidade que aumente o alcance daquilo que é a literatura no contexto atual, em que se calhar temos um bocadinho menos tempo, em que temos a possibilidade de ir a caminhar e ouvir um texto ou ouvir um livro”, refere a artista e ativista pelos direitos humanos.

“E obviamente abre uma nova possibilidade de aumentar o número de leitores e, neste caso, o número de ouvintes de literatura”, conclui a cantora.

Considerando Mia Couto um escritor notável, Selma Uamusse refere que ler o autor “foi muito desafiante”, e conectou-a “com todas as realidades e com aquele lado meio de fábula e fantástico que ele nos consegue transmitir através da sua escrita”, algo que tem, também, muita realidade e autenticidade.

“O Mia levou-me para casa e isso é algo que me deixa sempre muito, muito, feliz quando o leio”, refere a cantora sobre a leitura desta obra, algo que aceitou fazer “com imensa responsabilidade e com imenso orgulho”.

Questionada sobre a situação de Moçambique, Selma Uamusse aborda a situação de Cabo Delgado e fala do aumento da violência e do número de pessoas deslocadas e refugiadas, também, “por força das circunstâncias das intempéries e das cheias”.

Por outro lado, “tem aumentado o número de raptos, a redução da liberdade de imprensa, tem havido cada vez mais casos de jornalistas e pessoas que são censuradas. E é um país que está num momento muito, muito, frágil”, diz.

Para Selma Uamusse, “Moçambique é um país com imenso potencial económico, social, a nível turístico, mas que não está a conseguir dar aos seus os mínimos para que os seus permaneçam e permaneçam com qualidade e, acima de tudo, com esperança no futuro”.

O escritor moçambicano Mia Couto venceu em abril o Prémio PEN/Nabokov 2025 e em setembro de 2024 foi distinguido com o Prémio FIL (Feira Internacional do Livro de Guadalajara) de Literatura em Línguas Românicas.

Mia Couto nasceu na Beira, em Moçambique, em 1955, trabalhou como jornalista e professor, e atualmente é biólogo e escritor.

Prémio Camões em 2013, Mia Couto é autor, entre outros, de “Jesusalém”, “O Último Voo do Flamingo”, “Vozes Anoitecidas”, “Estórias Abensonhadas”, “Terra Sonâmbula”, “A Varanda do Frangipani” e “A Confissão da Leoa”.

Traduzido em mais de 30 línguas, o escritor foi distinguido com o Prémio Vergílio Ferreira(1999), com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas(2007), e com o Prémio Eduardo Lourenço(2011).

O seu último romance, publicado pela editora Caminho no final de 2024, e que parte de um episódio ocorrido na Primeira Guerra Mundial, tem na versão áudio-livro uma duração de aproximadamente cinco horas e estará disponível na loja digital Kobo, a partir de hoje.

Esta é a quarta obra de Mia em versão áudio-livro em língua portuguesa. “O Mapeador de Ausências”, narrado por Mónica Mendes, “Contos do Nascer da Terra”, com voz de Catarina Pires e ” Contos de Natal- O Fio das Missangas” narrado por Elizabeth Vieira, são as outras obras de Mia Couto que podem ser, além de lidas, escutadas.

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