
Praia, 28 mar 2022 (Lusa) – Cabo Verde vai disponibilizar 200 vagas para formação profissional a São Tomé e PrÃncipe e aumentar a linha de microcrédito para empreendedorismo, anunciou hoje o primeiro-ministro cabo-verdiano, lamentando os 15 anos de ausência de reuniões bilaterais.
“Estamos a realizar a segunda comissão mista depois de 15 anos. É preciso ter em conta que é muito tempo, mas vamos recomeçar e recomeçar bem, com o reforço do diálogo polÃtico e diplomático, com consultas bilaterais setoriais, com acordos e intenções”, afirmou Ulisses Correia e Silva, numa declaração conjunta, na Praia, com o homólogo são-tomense, Jorge Bom Jesus, que está a realizar uma visita oficial a Cabo Verde.
Antes desta declaração, no Palácio do Governo, as delegações ministeriais dos dois paÃses assinaram cinco novos acordos para reforço da cooperação bilateral, em áreas como a educação, turismo, agricultura, economia, formação profissional e comunidades, concluindo assim a segunda reunião da comissão mista.
“O que nós queremos aqui é, de facto, potenciar aquelas áreas em que uns e outros têm maior avanço”, afirmou Jorge Bom Jesus, reforçando a importância das relações históricas entre os dois paÃses, mas também as de consanguinidade entre ambos os povos, desde o perÃodo colonial, dando como exemplo a ilha do PrÃncipe, em que “pelo menos” metade da população é de origem cabo-verdiana.
Questionado sobre os 15 anos que passaram entre a primeira e esta segunda reunião da comissão mista, Ulisses Correia e Silva afirmou que não é este Governo (em funções desde 2016) que deve explicar, enquanto Jorge Bom Jesus reconheceu que a “instabilidade polÃtica” em São Tomé e PrÃncipe contribui para este perÃodo de afastamento.
“Tenho que reconhecer que passamos nos últimos 10, 15 anos, por alguma instabilidade polÃtica, governos que não chegavam ao fim. Possivelmente tudo isto terá pesado não só na materialização de acordos como na regularidade dessas comissões mistas”, disse o primeiro-ministro são-tomense.
Antecedendo a assinatura dos cinco acordos e de um processo verbal, bem como a declaração conjunta dos dois chefes do Governo, a comissão mista entre Cabo Verde e São Tomé e PrÃncipe, presidida pelos respetivos chefes da diplomacia dos dois paÃses, Rui Figueiredo Soares e Edite Costa Ten Jua, reuniu-se pela primeira vez desde 2007, quando foi assinado o Acordo Geral de Cooperação.
“Este momento é, para nós, de história. Sobretudo porque trata-se de uma comissão mista que não realizamos há sensivelmente 15 anos. Portanto, há toda a vontade e todo o interesse no sentido de quebrarmos os paradigmas e inaugurarmos novos tempos, sobretudo depois deste perÃodo, deste contexto pandémico, e neste perÃodo de pós-pandemia”, sublinhou Jorge Bom Jesus.
Numa altura em que ambos os paÃses, dependentes do turismo, tentam a retoma económica, o primeiro-ministro são-tomense deixou o repto ao homólogo cabo-verdiano: “Nada melhor que juntarmos as nossas forças para minimizarmos as nossas fraquezas”.
O primeiro-ministro de Cabo Verde explicou que com base nos acordos hoje assinados, os estudantes são-tomenses terão acesso à s universidades cabo-verdianas, mas também vai “aumentar de forma significativa” o número de vagas e bolsas para ensino profissional de jovens de São Tomé e PrÃncipe. Até 2025, serão 200 vagas para formandos de São Tomé e PrÃncipe frequentarem cursos de formação profissional em Cabo Verde, nomeadamente em instituições na área da hoteleira, turismo e energia
“Na convicção que se trata de um instrumento muito importante de empoderamento de jovens, capacitando-os para o mercado de trabalho e também para o empreendedorismo”, sublinhou Ulisses Correia e Silva.
Acrescentou que os acordos assinados hoje contemplam ainda o aumento de cinco milhões de escudos para 50 milhões de escudos (de 45 mil euros para 450 mil euros) na linha de microcrédito para empreendedorismo, para “aumentar a amplitude desta intervenção”.
“O microcrédito é também um instrumento fundamental e articula-se com a formação”, destacou Ulisses Correia e Silva, realçando que esta medida vai ajudar os jovens nos dois paÃses a criarem o seu emprego “e o dos outros”.
O chefe do Governo apontou ainda a formação profissional e o microcrédito como exemplos de projetos tripartidos, já que além dos dois paÃses também contam com a parceria do Banco Mundial ou da Cooperação do Luxemburgo.
Os entendimentos acordados entre os dois governos envolvem ainda as comunidades emigrantes, com destaque para o projeto que Cabo Verde quer “pôr de pé”.
“É a Casa de Cabo Verde em São Tomé e PrÃncipe, onde possamos representar um pouco daquilo que é a história que nós partilhamos, para ser um espaço também comunitário para todos”, destacou Ulisses Correia e Silva.
Os dois chefes do Governo afirmaram o “empenho” em tornar estes acordos em realidade, inaugurando uma nova fase no relacionamento bilateral em que o “foco” são ambas as comunidades.
“Nós auguramos que esta comissão mista seja de facto um recomeço de relações muito mais fortes, de relações muito mais estreitas. E os acordos dão corpo a esta intenção”, enfatizou Ulisses Correia e Silva.
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