
Porto, 26 jun 2026 (Lusa)- Os escritores Bruno Vieira Amaral e Djaimilia Pereira de Almeida disseram hoje, no festival literário Babell, no Porto, que as suas vidas são uma espécie de “acidente colonial” e que as personagens dos seus livros são-lhes próximas.
“A minha vida e a vida da minha famÃlia é um acidente colonial e só me interessa a grande história porque interseta a história individual”, declarou a escritora Djaimilia Pereira de Almeida (1982), durante uma conversa em que participou no evento literário e cultural Babell, com o amigo e escritor Bruno Vieira Amaral.
Questionada sobre a identidade portuguesa e a ideia do povo português se considerar herói, um tema recorrente nos escritos de Miguel Esteves Cardoso, Djaimilia Pereira de Almeida preferiu não se comprometer sobre a “génese do povo português”, mas assinalou que a exaltação do passado histórico do povo português continua a ser ensinada à s crianças na escola.
Bruno Vieira Amaral (1978), que confessou uma grande amizade e respeito pela literatura de Djaimilia, corroborou a ideia lançada de que a sua vida e da famÃlia também era um “acidente colonial”, porque tem raÃzes angolanas, e afirma que nunca parte do colonialismo português para escrever sobre o tema.
“Eu vou escrever sobre a história de um indivÃduo (…). Não me interessam as grandes histórias. A mim interessa-me a personagem próxima de mim”, asseverou Bruno Vieira Amaral, que ganhou o Prémio José Saramago em 2015, com o romance de estreia “As primeiras coisas”.
Bruno Vieira Amaral revelou que quando tem momentos de silêncio em que bloqueia, lê outros autores para perceber outros olhares, outros “ângulos para observar uma nova realidade”.
“Um dos autores que me ajuda a desbloquear é a Djaimilia. Nos últimos 15 anos não surgiu uma voz tão potente e tão original como a da Djaimilia. A originalidade da Djaimilia tem essa força”, assumiu perante uma plateia de cerca de meia centena de pessoas.
Djaimilia explicou que quando escreve “nunca faz planos”, e que detesta ter um tema.
“Os meus textos vão adquirindo géneros conforme escrevo. Dentro da prosa não vejo limites, e não há limitação de género. Nem penso na categoriza das livrarias e mesmo quando escrevo não-ficção eu diria que tudo o que eu faço é ficcional, tudo é falso, porque quando nos sentamos para escrever, escrevemos para enganar. É tudo memórias falsas, não há regras”.
Também Bruno Viera Amaral assume que, a partir do momento em que escreve, “a realidade tal qual é, já não existe”.
“A partir do momento em que estás a escrever a realidade tal qual ela é, já não existe. Eu permito-me deturpar tudo, para chegar a uma verdade de uma personagem ou a um sentimento em que os outros se possam identificar. (…) A imaginação é uma forma de interferir na realidade. A partir de um pequeno fragmento, tu procuras uma nova vida para que [os personagens] cheguem ao leitor e se sustentem sozinhos. No meu primeiro livro, inspirado no bairro em que cresci, perguntavam-me se era mesmo assim. O bairro que está no livro é transfigurado. O que não existia passou a existir”.
Além da temática do colonialismo e do processo de criação, os escritores também partilharam e assumiram que a temática do corpo humano e da sua decadência, a democracia da doença, que atinge, de fora, igualmente todos os seres humanos, a ética e os cuidadores de pessoas doentes aparecem nos livros de forma potente.
O corpo como uma “possibilidade, uma força, um talento”, explica Vieira Amaral. “O corpo é uma prisão, mas também uma libertação. As pessoas são julgadas pelo corpo. A literatura também dedica atenção suficiente a um objeto para lá da superfÃcie do corpo”.
Djaimilia admite que nos seus livros tem versado sobre a doença, porque é uma grande “igualdade”.
“Temos diferentes acessos à saúde, mas a experiência da dor aproxima-nos uns dos outros. A doença tem-me interessado, porque a doença mental, a degradação, as dependências são coisas que me interessam muito”, revela, acrescentando, contudo, que o seus livros “são mais sobre cuidadores do que falar em doentes”.
“Conheço a doença de muito perto e os cuidadores. Estão no centro da minha vida e da minha sensibilidade e conheço por dentro o género de cuidar. Interessa-me essa forma de amor”.
Bruno também assume que escrever sobre o corpo lhe “interessa literariamente e não só”, provocando sorrisos na plateia.
Segundo o escritor quando se está doente, especialmente os homens, “há a vulnerabilidade fÃsica na doença”.
Na obra “‘A Morte de Ivan Ilitch’, de Tolstoi, há uma exclusão provocada pela doença da personagem, mas oferece ao mesmo tempo a lucidez”, garante Vieira Amaral. E prossegue: “A doença é uma forma de santidade, de fulgor. Nos meus livros, falo muito da ausência e sobre aquele que cuida”.
Hoje, no Babell, ainda está agendado um concerto das artistas portuguesas Carminho e Bárbara Bandeira, na Avenida dos Aliados, a partir das 22:00.
O evento literário e cultural, realizado pela Fundação Livraria Lello e Livraria Lello, em coprodução com a Câmara do Porto, prossegue até dia 29. Foram já gastos mais de três milhões de euros, segundo avançou Rui Couceiro, comissário do Babell, na realização desta primeira edição.
No novo festival literário do Porto, o livro funciona como uma “moeda de troca”, dando a compra dum livro dá direito a assistir a uma sessão do festival.
CCM // MAG
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