
Coimbra, 18 mai 2023 (Lusa) — O sociólogo Boaventura Sousa Santos apelou para que o Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) crie com “máxima urgência” a comissão independente que investigará as acusações de assédio de moral e sexual contra si.
“Pretendo ser chamado para esclarecer as denúncias que possam existir contra mim”, afirma o ex-diretor emérito do CES, numa carta enviada aos órgãos sociais e associados daquele centro de investigação, a que a agência Lusa teve hoje acesso.
Boaventura Sousa Santos afirma estar “com a consciência tranquila” face à s acusações de que tem sido alvo, desde abril, por parte de investigadoras que nessa qualidade se relacionaram com a instituição na última década.
“A seu tempo e no lugar próprio, as refutarei uma por uma, mas dói que o CES pareça não ter qualquer interesse em ouvir a minha voz”, lamentou o professor catedrático jubilado da UC, de 82 anos.
Na carta, sublinha que, “como é comum em casos de linchamento mediático — pois disso se trata — surgem sempre novas acusações e o direito de defesa é negado”.
“Preocupa-me que não haja ainda (…) uma comissão independente para averiguar as denúncias. O CES não pode ficar de braços cruzados sem reagir à s denúncias efetuadas. Também me preocupam as consequências que podem advir desta passividade por parte do CES, que podem pôr em causa a sua existência”, alerta.
Boaventura Sousa Santos recorda que se autossuspendeu das funções que tinha no centro “para facilitar as averiguações que houvesse por bem levar a cabo”.
“Todavia, até à data, nenhum avanço nesse sentido foi feito. A única consequência da minha autossuspensão foi terem-me retirado os meus orientandos, o que não aceito”, critica, para reiterar que nega “veementemente as acusações de cariz sexual e de extrativismo” que lhe são imputadas.
Para o sociólogo, “face à gravidade destas imputações, (…) o Centro de Estudos Sociais tem de agir rapidamente”.
“O CES sempre foi uma instituição que lutou contra as práticas que me e lhe são imputadas. Não pode o trabalho de décadas ser destruÃdo por causa de umas pichagens sem qualquer fundamento”, acentua.
No seu entender, importa que os seus pares académicos, a Justiça e a comunicação social “conheçam a verdade”.
“Quero que exista um processo, interno ou externo, para que eu me possa defender (…). Mas não me qualifiquem de abusador, assediador ou extrativista”, reclama o cientista, que liderou em 1978 o grupo de fundadores do CES, que veio a ganhar reconhecida projeção internacional.
O CES, defende, “deve adequar as suas ferramentas a todo o tipo de denúncias, para proteção dos que se sentem abusados e também para proteção dos que são falsamente acusados”.
A Lusa tentou contactar o diretor do CES, António Sousa Ribeiro, mas não foi possÃvel.
Hoje, em declarações ao jornal Público, António Sousa Ribeiro confirmou que a anunciada comissão ainda não foi criada porque o processo tem sido “bastante mais moroso” do que o previsto.
Segundo o responsável, a comissão independente será constituÃda “o mais rapidamente possÃvel”.
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