Barragem moçambicana de Cahora Bassa recupera armazenamento após mínimos históricos

Redação, 17 mar 2026 (Lusa) – A atual época chuvosa em Moçambique já permitiu à Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), uma das maiores em África, mais do que duplicar os níveis de água armazenada naquela albufeira, após mínimos históricos provocados pela seca.

“Estamos agora a recuperar. Estamos a aproximar-nos aos 50% [da capacidade], provavelmente até ao final da época chuvosa, final deste mês, estaremos muito próximos dos 50% e estamos a vir de 20%”, disse o presidente do conselho de administração da HCB, Tomás Matola, à margem da conferência RENMOZ – Renováveis em Moçambique, em Bruxelas.

O evento decorre até 18 de março e contou hoje com a presença do Presidente moçambicano, Daniel Chapo, que apresentou os projetos de energias renováveis em Moçambique, tentando atrair investimento europeu para acelerar a transição energética do país.

À margem, Tomás Matola admitiu que esta recuperação foi influenciada sobretudo pelas chuvas “a montante da albufeira”, com os afluentes a serem “determinantes para esta recuperação”.

“Vamos depois, ao longo do ano, produzir, usando esse armazenamento. Vamos reduzir até ao final do ano, mas acreditamos que na próxima época chuvosa vamos ter uma outra recuperação até atingirmos novamente os níveis desejados de armazenamento”, afirmou, assumindo a convicção de que aquela albufeira e outros projetos deste ‘hub’ energético, como a vizinha nova barragem de Mphanda Nkuwa — também no rio Zambeze e na província de Tete, com 1.500 MW -, vão garantir as necessidades dos projetos em curso e dos países vizinhos, como a Zâmbia, Zimbábue, Maláui e Essuatíni.

“E, sobretudo, da África do Sul, em que é muito grande o nível de demanda. É muito mais alto em relação a todos os países da região. Portanto, com esses projetos nós entendemos que seremos, sim, um ‘hub’ energético na região. Só a HCB sozinha, a nossa visão até 2034, é até lá nós conseguirmos uma capacidade de até 4.000 MW [atualmente 2.075 MW]”, disse ainda, aludindo aos planos para uma nova central e uma parque solar.

A produção de eletricidade em Moçambique caiu 25% em 2025, influenciada pela falta de água na albufeira da HCB, após o “pior registo pluviométrico” em 43 anos, segundo informação oficial noticiada em 11 de março pela Lusa.

Num relatório de execução orçamental de 2025, o Governo aponta que a produção global de energia elétrica no país foi de 14.408.381 MegaWatt-hora (MWh), uma execução de 76,7% em relação ao plano anual e menos 25,4% face a 2024.

“A baixa produção deveu-se em grande medida ao fraco desempenho das centrais hídricas, que no período em análise, registaram um grau de execução de 72,3% e um decréscimo de 30,7% face ao mesmo período de 2024”, lê-se.

Acrescenta que o país “é o maior produtor de hidroeletricidade na África austral” e que “quase toda a sua produção provém da HCB”, sendo “complementada por outras pequenas barragens sob gestão” da Eletricidade de Moçambique.

Em 2025, segundo o relatório, as centrais hídricas geraram 11.207.934 MWh, menos 30,7% face a 2024, desempenho explicado “em grande medida, pelos efeitos do fenómeno El Niño que afetam a central da HCB desde 2023”.

“A escassez de precipitação na bacia do Zambeze [onde funciona a HCB] reduziu a disponibilidade de água nas principais albufeiras do país (Corumana, Mavuzi e Chicamba), culminando no ano hidrológico de 2024/25 com o pior registo pluviométrico dos últimos 43 anos”, acrescenta.

A falta de disponibilidade de energia suficiente e a preços considerados acessíveis esteve também no centro de um diferendo que levou a Mozal, a maior indústria do país, a suspender a atividade desde 15 de março, afetando mais de 4.000 empregos, diretos e indiretos.

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