Bando dos Gambozinos segue há 50 anos “linha de exgência que não se vê, mas é firme”

Porto, 04 jul 2026 (Lusa) — O Bando dos Gambozinos, associação sem fins lucrativos, foi criado há 50 anos no Porto, com a missão de educar através da arte, seguindo, desde então, “uma linha de exigência que não se vê, mas que é muito firme”.

Suzana Ralha, diretora dos Gambozinos e cofundadora da associação, explicou à Lusa, a propósito das comemorações do 50 anos de atividade, que “a intenção nunca foi formar artistas, mas educar através da arte, da forma mais abrangente”.

Funcionam durante todo o dia, destinando a parte da manhã aos alunos da escola equivalente ao 1.º ciclo do ensino regular e as tardes mais vocacionadas para os adolescentes, muitos dos quais antigos ‘Gambozinos’, vindos de escolas públicas para desenvolverem ou darem continuidade à aprendizagem em diversas áreas artísticas.

Nas declarações à Lusa, Suzana Ralha e Rui Pereira, membro da direção da associação, consideraram que não faz sentido a separação entre as diversas áreas artísticas, as áreas de expressão e do pensamento.

Defendem, por isso, que até aos 10 anos as crianças devem ter “uma educação robusta e de aprendizagem das diferenças” para, posteriormente, elas e os pais “não vivenciarem o medo e a culpa quando chegam a outras escolas”.

“O valor fundamental aqui é a cooperação. Cooperação por oposição à competição. Não é possível ensinar os dois conceitos ao mesmo tempo a crianças pequenas […], o que motiva um medo grande em muitos pais”, afirmaram.

Contam que num mundo competitivo, e muitas vezes injusto, os pais questionam-se se devem treinar o seu filho “para a selva ou para a humanidade”.

“Esse dilema não existe para nós, a nossa opção é pela humanidade, depois a selva logo se vê. Portanto, o valor fundamental é a cooperação, é a ausência de culpa”, acrescentam.

No Bando dos Gambozinos, é normal recorrer a compositores e intérpretes conhecidos no ensino da música, o mesmo acontecendo com profissionais da expressão plástica ou da literatura e da poesia.

“São crianças habituadas a conviver com referências, que é o que os diferencia em relação a outros modelos de aprendizagens”, salientam.

No Bando dos Gambozinos, ao contrário da escola regular, não existem turmas, o ensino funciona com base em grupos pequenos, em oficinas, o que não impede que cada um desenvolva o seu percurso individualmente.

“A oficina põe-nos a cabeça muito perto das mãos e as mãos muito perto da cabeça”, defendeu Rui Pereira.

Nas manhãs de sextas-feiras, o grupo junta-se para “avaliar o que deve ser mantido, o que podem melhorar, o que merece palmas e criticas”, disse Suzana Ralha, que estudou música e piano, tendo sido aluna de Helena Sá e Costa (1913-2006), e desenvolveu a partir de 1975 uma intensa atividade na área da educação.

É autora de repertório musical para a infância e juventude, criado a partir de textos de escritores portugueses, e foi também coordenadora do departamento educativo da Casa da Música, entre 1999 e 2004.

A responsável explicou que quando, por exemplo, há um ‘Gambozino’ que está a fazer uma alfabetização mais lenta, “a professora de português fica com ela sozinha, o tempo que for necessário, até atingir o nível dos outros”.

“Isto também acontece com os mais pequeninos, o que ainda não tirou as fraldas, ou o que não sabe apertar as sapatilhas, ou o que não consegue distinguir o casaco dele. Uma das atividades dos pequenos é pendurar o casaco numa cruzeta quando chegam, para perceberem que o casaco é uma coisa que custa dinheiro e que não é necessário ter 50 casacos, basta um, por isso é necessário cuidar dele”, afirmou.

Nas atividades letivas, “não há hierarquia”.

“Temos o português, a matemática, o estudo do meio, a par da música, da expressão plástica, da dança, do ballet, do teatro, do tai-chi, da natação ou atividades comunitárias. Temos a filosofia, o xadrez, a história e as ciências, porque se o português e a matemática são imprescindíveis, o resto também”, salientou Suzana Ralha.

À pergunta se seria fácil transpor estes princípios para o ensino regular, Suzana Ralha disse que seria difícil: “A escola deve ter a capacidade de refletir e fundamentar os contrapontos necessários e não há grandes estímulos, às vezes, para que os professores façam isso”.

“Em muitos aspetos a escola regular cumpre o papel contrário àquele que nós achamos que deve cumprir. Só se é pequeno uma vez e, portanto, desperdiçar a infância e a juventude é quase um crime. Isto também é político, quer dizer, também depende do tipo de sociedade é que nós queremos, não é? Nós gostávamos de ter outro [tipo de sociedade] e trabalhamos nesse sentido”, sustentou.

Suzana Ralha considerou ainda que houve “pouca evolução na valorização do papel do professor, o que é um aspeto gravíssimo, e continua a haver uma pirâmide invertida, porque ser educador de infância, trabalhar com crianças pequeninas, é menos prestigiante do que trabalhar em doutoramentos”.

“Eu acho que deveria ser ao contrário, porque muitos dos problemas que se encontram nos alunos universitários vêm de trás. E depois, também acho que a escola sempre foi uma instituição politizada, digamos, atendendo a que as políticas, até mundiais, estão a apontar num sentido negativo, um sentido de violência, um sentido de lei do mais forte, um sentido do mercado. E quando a escola é transformada num objeto de consumo que beneficia determinado tipo de ideais, transforma-nos a todos em consumidores, em consumidores passivos e consumidores pouco conscientes”, considerou.

A responsável pelo Bando dos Gambozinos admite que “muito se passa sem o acordo e sem a conivência dos professores, mas os professores também estão muito condicionados”.

Ralha criticou, por exemplo, a necessidade de “tanta tecnologia e programação” na escola.

“Pergunto-me se isso faz sentido relativamente às disciplinas das humanidades, que são aquelas que nos fazem perceber quem somos, de onde viemos, como é que funcionamos em detrimento dessas disciplinas, isto tem um objetivo. Literacia financeira para crianças é uma coisa que, se a gente pensar, é absolutamente surreal”, frisou.

Nesta escola, “não temos telemóveis. Não usamos computadores. Os meninos habituam-se à ideia de que aqui não há telemóveis. E, portanto, mesmo os mais crescidos, quando chegam, os telemóveis desaparecem. Aliás, nós não tivemos redes sociais até agora, nunca tivemos. Vamos ter agora, a propósito dos 50 anos, mas de uma forma cautelosa, positiva, ao nosso serviço e não ao serviço da forma como hoje as pessoas comunicam”, disse.

“Não há telemóveis, não há computadores, há papel, há lápis, há livros, há jogos. E eles encaram isto com naturalidade, mesmo os mais crescidos não foram habituados assim, sabem que chegam aqui e esquecem o telemóvel. O Rui [Pereira] costuma dizer que isto é terreno libertado”, disse.

Rui Pereira recordou que os Gambozinos nasceram ainda “no tempo da noite, antes do dia inteiro e limpo, de Sofia de Mello Breyner Andresen, em 1972/73, com uma série de gente impressionante daquele tempo, que estava muito à frente do seu tempo, como por exemplo Luísa Cortesão”.

“E foi daí que nascemos, os Gambozinos são filhos da revolução. Já nos chamaram o colégio alemão de esquerda, já nos chamaram muita coisa, mas nós temos a noção de que as crianças são muito sérias e que não se pode trair essa seriedade, as coisas são para fazer bem, porque as crianças são a única receita que temos contra a loucura”, disse.

Nas comemorações dos 50 anos, que começam na terça-feira, no Rivoli, vai ser possível “encontrar avós, pais e netos”.

“Há ‘Gambozinos’ que têm cá os filhos, os netos, a estudar. Temos uma visão do mundo, simultaneamente, muito plural e muito rigorosa”, acrescentou.

*** Paula Martinho (texto) e Estela Silva (fotos), da agência Lusa ***

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