
Maputo, 25 mai 2026 (Lusa) – O governador do Banco de Moçambique, Rogério Zandamela, afirmou hoje que a decisão do Governo de antecipar o pagamento integral de 630 milhões de euros de dívida ao FMI não afetou as contas da instituição, “pelo contrário”.
“O Banco de Moçambique não ficou mais fraco, débil e vulnerável por causa desta decisão. Até diria o contrário. Hoje estamos seguros, em função de certos riscos que se estavam a ver, estamos bem melhores do que estaríamos se não tivéssemos tomado esta decisão”, afirmou o governador, questionado pelos jornalistas no final da reunião da Comissão de Política Monetária (CPMO).
“Continuamos com um nível de reserva extremamente confortável. Está hoje praticamente a cinco meses de importação, que é bem alto, então isso não enfraqueceu. Quando se fez, estávamos numa posição, e continuamos, numa posição extremamente confortável”, respondeu Zandamela, sobre o impacto do recurso às Reservas Internacionais Liquidas (RIL) para antecipar esse pagamento e não relativamente a outro endividamento.
“O mais importante aqui, para nós, como Banco de Moçambique, como custódia destas reservas, a decisão – quero repetir bem forte – de termos pago o FMI, de modo nenhum enfraqueceu o balanço do Banco de Moçambique”, enfatizou.
As RIL moçambicanas caíram 18% em março, para mínimos de mais um ano, de 3.486 milhões de dólares (2.960 milhões de euros), após o Governo as usar para liquidar a dívida ao FMI.
Estas reservas – divisas, em moeda estrangeira, necessárias à importação de bens e serviços — estavam a crescer, todos os meses, desde setembro, até atingirem o máximo histórico de 4.258 milhões de dólares (3.616 milhões de euros) em fevereiro, conforme dados de um relatório estatístico do Banco de Moçambique, a que a Lusa teve acesso.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, classificou na altura como “corajosa” a decisão de liquidar total e antecipadamente a dívida de 630 milhões de euros ao FMI, recorrendo às reservas.
“Esta corajosa decisão deve ser vista de forma positiva e estratégica, como um sinal inequívoco da responsabilidade macroeconómica e do reforço da estabilidade internacional de Moçambique. E porque, igualmente, a dignidade de um povo não tem preço”, disse Chapo.
“Por isso, continuaremos a adotar medidas que estimulem a produção interna, a atração de mais investimentos, através do fortalecimento de um ambiente de negócios mais favorável e uma economia cada vez mais competitiva”, acrescentou, insistindo na disponibilidade para um novo programa de apoio do FMI, em negociação desde 2025.
O Ministério das Finanças moçambicano confirmou anteriormente que fez uma “amortização integral e antecipada” de 698.587.604 dólares (630 milhões de euros) em 23 de março, liquidando financiamentos contraídos no âmbito do Fundo para a Redução da Pobreza e o Crescimento (PRGT), do FMI, com recurso a RIL do país.
O volume anterior destas reservas garantia a cobertura de mais de cinco meses de necessidades de exportação de Moçambique. Contudo, face às queixas de falta de divisas na banca por parte dos empresários, fonte do Governo moçambicano ouvida pela Lusa em março já tinha admitido estar em estudo a possibilidade de baixar esse nível de reservas.
É que apesar do volume de RIL, os empresários também se queixavam de falta de acesso a divisas, que necessitam para importação de bens, conforme apontou ainda em novembro o presidente da Confederação das Associações Económicas (CTA) de Moçambique, Álvaro Massingue.
“A escassez de divisas é hoje uma emergência económica. Sem moeda externa, as empresas não importam matérias-primas, não cumprem contratos e não crescem. O Estado deve garantir prioridade no acesso a divisas para empresas produtoras e exportadoras e criar incentivos para quem exporta e substituir as importações”, disse Massingue.
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