
Luanda, 03 abr 2022 (Lusa) — O ativista luso-angolano Luaty Beirão considera que 20 anos depois do calar das armas em Angola falta ainda alcançar a paz social e critica o uso da paz como “arma de arremesso” pelo partido do poder (MPLA) que constantemente recorda “que ela é frágil”.
Há 20 anos, em 04 de abril de 2002, o governo do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), as duas formações polÃticas beligerantes que estiveram envolvidas, desde a independência do paÃs, numa longa guerra civil que se arrastou por três décadas, assinavam na cidade de Luena (Moxico) os acordos que, finalmente, permitiram a Angola viver em paz.
Mas “depois de se conquistar a paz das armas é preciso conquistar a paz social, é preciso criar empregos, estabilidade, dignidade para a vida (dos angolanos)”, diz o ativista luso-angolano Luaty Beirão, lamentando que “infelizmente, 20 anos depois”, a paz seja tida como uma arma de arremesso.
“É permanentemente lembrado que ela é frágil. Não é à toa que, 20 anos depois, o lema das eleições ainda seja ‘vota pela paz’. Há um lembrete permanente de que a paz tem dono e que esse dono (o MPLA) esta sempre predisposto a deixar cair tudo”, critica.
Em ano de eleições, a ameaça pode ser mais real, admite o também músico, que ficou conhecido pela sua luta em prol da liberdade de expressão, democracia e luta anticorrupção.
Luaty Beirão fazia parte de um grupo de 15 jovens detidos em 2015, quando debatiam um livro sobre ditaduras e democracias, e acusados de estar a preparar um golpe de Estado contra o Governo MPLA, então liderado por José Eduardo dos Santos, um processo que ficou conhecido como “15+2”.
“É uma ameaça que nos é permanentemente recordada: a paz depende de um lado e se esse lado for posto em causa, incluindo perder eleições de forma limpa, pode ficar em causa. É o que está nas entrelinhas do evocar dessa palavra sempre que vem do lado do Governo”, aponta o ativista, reconhecendo que “infelizmente, a paz é frágil”.
“A paz social não foi conquistada, as pessoas estão tensas, estão revoltadas e se as coisas não forem feitas de forma a descomprimir, pode haver tensões que levem a conflitos”, considera, frisando ainda que os angolanos nunca quiseram guerra, antes foram convocados para ela.
Segundo Luaty Beirão, “quem tem a última palavra é quem os convoca, quem lhes põe armas nas mãos, quem lhes põe botas nos pés e os manda para uma frente de combate que eles não pediram. Essas pessoas estão predispostas a fazê-lo de novo e isso é um infortúnio. Isso magoa”.
Conhecido no meio artÃstico como Ikonokasta, o “rapper”, de 40 anos, conviveu metade da sua existência com a guerra, perÃodo de que guarda algumas recordações infelizes: “É claro que viver em paz é melhor do que viver em guerra, eu lembro-me de ver pessoas, estudantes, a ser apanhadas na rua e levadas para a frente de combate, pessoas que tiveram de abdicar das suas vidas para que pudéssemos estar aqui hoje”.
Mas reforça: “vinte anos depois é impossÃvel não nos perguntarmos o que se conquistou, o que se conseguiu, o que tantos anos de conflito, em que as pessoas doaram, por vezes, involuntariamente as suas vidas trouxe ao paÃs”.
Lamentou, por outro lado, que a criação de emprego e a diversificação da economia, prometidas há mais de 20 anos não continuem a passar de “chavões” que “até hoje não se materializam”, o que deixa “um sabor agridoce” quanto à s conquistas da paz que “foi um ponto de partida”.
Afirma, no entanto, que nem tudo foram oportunidades perdidas.
“Há sempre qualquer coisa que se ganha, há uma maturação que leva o seu tempo, sobretudo quando não houve investimento na educação”, disse o ativista, considerando que esta foi uma das principais oportunidades perdidas, levando o paÃs “a depender de estrangeiros para tudo”.
“Continuamos a deitar pela janela a oportunidade de educar a nossa população para ela poder gerir este paÃs no futuro e isto parece ser feito com intenção”, criticou Luaty Beirão, recordando que Angola se comprometeu a investir 20% do seu orçamento na educação em 2000, o que ainda não se concretizou.
Referindo que “há muitas oportunidades desperdiçadas”, reconhece, no entanto, que “as pessoas estão a aprender a reivindicar e a não se deixarem pisar, como acontecia”, apesar de o processo ser lento.
“Às vezes perdemos a juventude, querendo que as coisas andem mais depressa, temos de saber aceitar que nem sempre vão ao ritmo que gostarÃamos. Mas não devemos continuar a adiar o ponto zero”, concluiu.
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RCR // VM
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