
Paris, 24 set (Lusa) — O navio de salvamento Aquarius pediu hoje à s autoridades francesas que autorizem a entrada no porto de Marselha e o desembarque, excecional e por razões humanitárias, das 58 pessoas que levam a bordo.
O anúncio foi feito numa conferência de imprensa em Paris pelo diretor de operações da SOS Méditerranée, Frédéric Penard, segundo o qual, após a decisão do Panamá de retirar o pavilhão ao navio, este é o único lugar que permite gerir a nova situação.
“Não temos outra opção senão dirigir-nos para o único sÃtio onde o SOS pode trabalhar nestas condições totalmente crÃticas”, sublinhou Penard, recordando que se encontram atualmente no Aquarius 58 pessoas resgatadas, entre as quais 17 mulheres, uma delas grávida. A maior parte serão cidadãos lÃbios que fogem aos violentos combates entre milÃcias que têm sido travados em TrÃpoli, no mais sangrento conflito desde o inÃcio da guerra civil em 2014, disse à agência Efe, Aloys Vimard, porta-voz da ONG Médicos Sem Fronteiras, corresponsável do Aquarius.
Este é único navio de resgate civil atualmente a operar no Mediterrâneo central, considerada a rota migratória mais letal do mundo.
“Das 58 pessoas que resgatámos, 37 são lÃbias, famÃlias que fugiram. Estamos impressionados, é a primeira vez que o número de lÃbios supera o de outras nacionalidades”, disse, numa conversa telefónica.
Mais de 100 pessoas foram mortas e mais de meio milhar ficaram feridas, a maioria civis, nos combates que, desde 27 de agosto, envolvem milÃcias contrárias e favoráveis ao Governo do Acordo Nacional (GNA) apoiado pela ONU em TrÃpoli.
Os confrontos intensificaram-se ao longo deste fim de semana, apesar do acordo de cessar-fogo mediado pela ONU em 5 de setembro, e envolveram várias milÃcias das cidades vizinhas de Misrata e Zintán.
Especialistas internacionais e analistas locais concordam que a sua extensão e violência confirmam que a GNA é incapaz de controlar as milÃcias que dividem a capital e a costa norte do paÃs, e que, ao contrário do que a Europa proclama, a LÃbia não é um porto seguro.
Vimard denunciou que os obstáculos polÃticos, económicos e jurÃdicos ao trabalho das ONG no Mediterrâneo se multiplicaram nos últimos meses e salientou que “a guarda costeira da LÃbia não está preparada” nem tem “capacidade para fazer este trabalho”.
Nos últimos meses, os navios de resgate civis foram forçados a retirar-se da chamada “rota central”, acossados pela Guarda Costeira da LÃbia e pelas pressões da União Europeia e do Governo italiano.
No domingo, as duas ONG responsáveis pelo Aquarius acusaram o Governo italiano de pressionar o Panamá a retirar o seu pavilhão ao navio.
“Esta situação condena centenas de homens, mulheres e crianças, que buscam desesperadamente segurança, à morte no mar; e é um forte golpe contra o trabalho do Aquarius, a única embarcação de busca e resgate não-governamental ainda ativa no Mediterrâneo Central”, alertam as ONG num comunicado.
Segundo o Panamá, a principal queixa das autoridades italianas é que “o capitão do navio se recusou a devolver os migrantes e refugiados ao local de origem”.
Desde junho, devido à decisão do ministro do Interior transalpino, Matteo Salvini, que encerrou os portos italianos aos migrantes, o Aquarius está proibido de atracar nos portos de Itália.
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