
Valpaços, Vila Real, 03 nov 2023 (Lusa) — Os produtores de castanha de São João da Corveira, concelho de Valpaços, queixam-se de anos consecutivos de diminuição de produção e, nesta campanha, mostram-se preocupados com a quebra do preço de venda do fruto.
“Mesmo quem não tem castanha, vive da castanha. É uma bola de neve, se eu não ganho, eles não ganham”, afirmou hoje à agência Lusa a presidente da Junta de Freguesia de São João da Corveira, Fátima Machado, localizada na serra da Padrela, área da Denominação de Origem Protegida (DOP).
Com seis aldeias anexas – Rio Bom, Sobrado, Junqueira, Vilarinho do Monte, Nozedo e Varges – e uma comunidade de cerca de 450 residentes, a freguesia do distrito de Vila Real tem na produção de castanha a sua principal fonte de rendimento.
Há quem produza, há três empresas ligadas à castanha (compra, venda e transformação) e há quem viva do trabalho diário nos soutos (podas, apanhas).
“É muito complicado”, lamentou a autarca, que salientou que há três campanhas consecutivas que a produção de castanha diminui neste território.
Este ano, foi a septoriose que afetou os castanheiros, uma doença que provoca a queda precoce das folhas, que ficam castanhas, como se tivessem sido queimadas, e ainda do ouriço. Este fungo surge em função das condições meteorológicas, nomeadamente em alturas em que se verifica um tempo húmido e depois calor intenso, como aconteceu em setembro e inÃcio de outubro.
“É o cancro, depois é a tinta, a vespa, é muita, muita doença. Temos que andar todo o ano nisto e depois chega-se a esta altura e não há nada?”, lamentou Maria EmÃlia Costa que apontou para um “ano péssimo” e de ter sido “apanhada de surpresa”.
Esta produtora disse não ter sido avisada para realizar os tratamentos preventivos contra a septoriose, uma queixa que foi também destacada por outros agricultores da freguesia.
Nos seus 4.800 castanheiros costuma colher entre 25 a 30 toneladas de castanha, mas este ano teme apanhar apenas à volta de cinco toneladas.
No entanto, garante que as castanhas que sobreviveram e estão, agora, a ser apanhadas estão “boas, bonitas, brilhantes e grandes”.
Este ano verificaram-se queixas quanto à qualidade do fruto, principalmente o colhido numa fase mais inicial da campanha, o que se está a refletir no preço de compra ao produtor, que ronda entre 1,20 e 1,50 euros o quilo.
Questionada sobre o preço de venda, Fátima Machado aponta o dedo às castanhas apanhadas numa primeira fase da campanha, porque se aguentavam pouco tempo.
O valor que está a ser oferecido aos agricultores, segundo Maria EmÃlia Costa, não paga os custos de produção, destacando a mão-de-obra e os produtos usados para tratar os soutos.
A produtora exemplificou que paga 60 euros por dia a cada trabalhar e que dá ainda o transporte e salientou que, por cada tratamento que faz aos soutos, gasta cerca de 1.800 euros.
“É um grande investimento. Dizem que temos que caldear os castanheiros como se faz à s videiras. Se calhar de 15 em 15 dias, quem é que aguenta? É que é uma área muito grande”, referiu.
Daniel Carneiro iniciou a apanha esta semana e antevê uma quebra de produção, no mÃnimo, “entre os 60 a 70%” nos seus 700 castanheiros adultos.
“Eu apanhava mais castanha há sete, oito anos com metade dos castanheiros que tenho hoje”, afirmou, referindo que o que vendeu até agora foi a 1,20 euros o quilo o que, nas suas contas, serve apenas para pagar “ao pessoal”. É, acrescentou, para “não a deixar no souto”.
Fátima Machado, que é autarca e produtora, apontou para um “acumular de despesa”, com combustÃveis e produtos fitofármacos cada vez mais caros.
Referiu já ter colhido oito toneladas de castanha, duas toneladas no ano passado e este ano prevê que a quebra seja mais acentuada. Há dois anos foi a septoriose que afetou os castanheiros, no ano passado foi a seca e, este ano de novo, a septoriose.
A presidente junta a sua voz aos que pedem por avisos atempados para travar a doença. “Ninguém está a pedir ajudas porque ninguém nos vai dar nada, mas já que temos tantas associações e universidades, que nos ajudem. É muita doença numa só árvore”, frisou.
Micael Borges tem cerca de 500 castanheiros e prevê uma quebra de produção das três toneladas para os 600 a 700 quilos. “É o máximo que vou conseguir”, lamentou.
“Estava a ser um bom ano até ao inÃcio de setembro e depois, de repente, passamos a nada”, afirmou, referindo que concilia o emprego com a produção de castanha, que é uma importante ajuda no orçamento familiar.
Este é já, acrescentou, o terceiro ano “sempre a diminuir a produção”. “Veremos como será o próximo”, salientou, mostrando-se preocupado com o futuro do setor.
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