
Lisboa, 23 jun 2023 (Lusa) – O jornalista e ativista angolano Rafael Marques defendeu hoje uma união dos angolanos que querem um paÃs diferente, em prol de um projeto comum de transição após João Lourenço, atual Presidente de Angola.
Segundo o jornalista, esses movimentos de pessoas que querem um paÃs diferente já “estão aÔ, mas precisam de se unir.
Em declarações à Lusa, à margem do III Congresso da AngolanÃstica, que decorreu em Lisboa, em que foi um dos oradores, Rafael Marques criticou João Lourenço, as lideranças angolanas, o Governo e defendeu um novo projeto para o paÃs baseado “no conhecimento”.
“Nós temos de ultrapassar o partidarismo, a ideia de sociedade civil como um foco de exclusão ou de reclusão, temos de pensar como angolanos que querem um paÃs diferente, independentemente das nossas convicções polÃticas, religiosas ou sociais. Porque Angola foi fragmentada pelo partidarismo, pelas obsessões”, considerou.
“Felizmente – isso também devemos atribuir à gestão de João Lourenço – hoje já há uma mentalidade diferente, e muitos militantes do MPLA [Movimento Popular para a Libertação de Angola, no poder desde a independência] que defendiam o partido Estado como tal, hoje defendem um debate, porque também sentem fome”, acrescentou.
Não admitindo que João Lourenço termine o seu mandato antes de 2027, como determina a Constituição, o diretor e fundador do Maka Angola disse: “Nós respeitamos a Constituição, mas exigimos que ele respeite também a Constituição”.
Agora, admitiu que “se a situação económica continuar a agravar-se como tal e, com a fome que também graça nos órgãos de Defesa e Segurança” o paÃs poderá ter “um grande problema”.
Por isso, reforçou: “Teremos de pensar como juntar aqueles, quer ao nÃvel do poder, quer ao nÃvel da oposição, quer ao nÃvel da sociedade em geral que começam a configurar um projeto de transição pós-Lourenço. Porque em 2027 Lourenço sai”.
“Eu sou pela Constituição. Ele tem um mandato que vai até 2027. Mas nós temos de pensar agora o que será Angola após Lourenço. Não vamos criar mais crises e conflitos, porque o paÃs não tem condições de aguentar mais conflitos. Não é o que os angolanos precisam. Os angolanos precisam de soluções de paz e uma via de transição. Porque Lourenço vai sair. Está a prazo (…). Não vai conseguir um terceiro mandato”, afirmou, convicto, o jornalista.
Recordando que a Constituição angolana também não permite candidaturas independentes à presidência do paÃs, Rafael Marques defendeu uma solução “em que os angolanos possam unir-se em torno do conhecimento”.
Para o ativista, um dos problemas do paÃs tem a ver com a aposta “em lideranças polÃticas mal formadas”.
“É o que acontece com o sistema polÃtico atual. Tem de ser o partido a indicar o lÃder. Se o partido indicar um indivÃduo bruto, temos de lidar com esse bruto, se o partido nos indicar um indivÃduo que pensa bem, temos sorte. É isso que devemos ultrapassar para permitir que Angola consiga estar nas mãos daqueles que, de facto, têm ideias para a transição e para o bem comum”, referiu.
“Angola precisa de uma transição para rever todo o seu sistema polÃtico, de governo e de criação de espaços de nova conduta social, de um novo tipo de mentalidade que permita o desenvolvimento humano”, acrescentou.
Quanto aos movimentos de pessoas que podem estar nesse projeto, Rafael Marques apenas comenta que “esses movimentos estão aÔ.
“As pessoas precisam é de união. E este Presidente está a ser um fator de desunião, uma ameaça à República pelo seu comportamento errático. Então é isso que nós precisamos reverter”, advogou.
Para Rafael Marques, “o que acontece com os dirigentes atuais é que chegam ao poder e pensam que o poder é deles”.
“João Lourenço está a pensar que ele é o dono do poder de Angola. Ele não é. O poder é do povo (…) e ele não pode estar a conduzir-nos para o abismo”, realçou. “Temos de ser nós, angolanos (…) a travar esse mau caminho”, reforçou.
As manifestações, salientou, são um direito consagrado na Constituição e deve haver respeito pelos direitos e deveres dos cidadãos: “É uma forma de protesto dos cidadãos quando a situação económica ou os atos do Governo merecem o repúdio, merecem a junção dos cidadãos para manifestarem o seu desagrado com a forma como os destinos do paÃs estão a ser conduzidos”.
E o uso da força para dispersar manifestantes em protesto, como aconteceu no passado fim de semana, é no entender do jornalista “uma faca de dois gumes no contexto atual, porque o polÃcia também tem fome e também tem famÃlia, o soldado também”, alertou.
“Os dirigentes não podem continuar a pensar que estão em situação de total imunidade e impunidade perante a crise económica que devasta grande parte das famÃlias angolanas”, frisou.
Mas para o ativista o problema fundamental não são as manifestações é a ação que os angolanos devem exercer com base no conhecimento para encontrarem soluções para o paÃs, “de devolução do poder de transição”.
“Temos problemas muito sérios ao nÃvel da educação, ao nÃvel da economia. Continuamos a falar de diversificação da economia, e o que é que o ministro da Economia faz? Quem sabe o que o ministro da agricultura faz?”, questionou.
“Uma parte do Governo só funciona para resolver problemas pessoais. São essas questões que temos de discutir todos os dias. Temos de criar espaço de liberdade em Angola e são os cidadãos que o devem fazer. E esses espaços de liberdade não passam só pelas manifestações, porque todos os angolanos podem sair à rua, mas se não tivermos uma estratégia, um plano sobre como alterarmos o quadro polÃtico e económico atual, poderemos ficar o tempo todo na rua e alteramos o quê?”, concluiu.
ATR // LFS
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