
Luanda, 08 set 2022 (Lusa) — O Observatório para Coesão Social e Justiça (OCSJ) angolano criticou hoje o “clima de tensão” e a “movimentação de tropas e meios militares desproporcionais” em centros urbanos, considerando que o povo “quer apenas a contagem justa dos votos”.
Para o OCSJ, qualquer resultado contrário à vontade popular manifestada nas urnas “compromete a paz social, a democracia, atenta e dificulta a oportunidade de edificação de um verdadeiro Estado de Direito e pode abrir brecha para oficialização de um governo de facto”.
Os “governos de facto”, refere a organização não-governamental, “não se estabelecem somente através de golpes de Estado violento, se não também por vÃcio ou lacuna de poder ou mesmo por fraude de tipo eleitoral”.
No seu comunicado relativo à s eleições gerais de 24 de agosto, onde o Movimento de Libertação Popular de Angola (MPLA) foi declarado vencedor pela Comissão Nacional Eleitoral (CNE), o observatório assinala que “toda a instauração do poder ilegÃtimo se traduz em governo de facto”.
E “consequentemente implica a existência de um Estado polÃcia, porque inevitavelmente as normas serão violadas desde a sua origem e deste modo todos os atos e ações do governo podem considerar-se carentes de legalidade e legitimidade”, realça.
O OCSJ, coordenado pelo advogado Zola Bâmbi, diz existir em Angola “sinais marcantes de violência polÃtica”, como “pronunciamentos incendiários e de intimidações proferidos por altas figuras do regime e altas patentes das forças de defesa e segurança”.
No entender desta organização, as referidas figuras “fazem premonições de instabilidade e guerra”.
“E pior ainda é o clima de tensão e a movimentação de tropas e meios militares desproporcionais em centros urbanos”, assinala.
O Estado-Maior General das Forças Armadas de Angola (FAA) determinou “prontidão combativa do seu efetivo” neste perÃodo pós-eleitoral e efetivos da polÃcia nacional angolana estão igualmente em prevenção.
Nas principais ruas e avenidas de Luanda, capital angolana, são visÃveis as forças de defesa e segurança armados e exibindo todos os meios militares.
Segundo o OCSJ, “o que está em causa é somente do resultado de uma contagem transparente de votos e o reconhecimento da vitória ao partido que porventura terá vencido as eleições de forma livre, justa e transparente”.
Inexplicavelmente, salienta a organização, “instalou-se o clima de medo e incerteza e uma profunda indignação quando se verificam atos de perseguições, detenções arbitrárias, prisões ilegais e julgamentos sumários com factos infundados”.
A necessidade da recontagem dos votos das eleições de 24 de agosto tem sido defendida pelos partidos polÃticos concorrentes e por vários atores da sociedade civil angolana.
“A ninguém interessa os demónios da guerra passada. O processo de voto ocorreu de forma pacÃfica, calma, ordeira e sem constrangimento”, observa o observatório.
“Deste modo, o povo merece que lhe seja comunicado o resultado que advém de uma contagem justa, transparente e não influenciado por interesses alheios. Pois, não é somente aos partidos que interessa o resultado das urnas, se não ao povo que depositou o voto por livre escolha”, aponta.
O observatório acrescenta: “É preciso renunciar a qualquer apelo à violência, o imperativo é a paz social, os interesses da nação e do povo soberano. Deste modo, se deve restituir a legalidade eleitoral para solidificação do Estado democrático e de direito e manutenção da paz”.
Na semana passada, o presidente da CNE, Manuel Pereira da Silva, divulgou a ata de apuramento final das eleições gerais de 24 de agosto, que proclamou o MPLA e o seu candidato, João Lourenço, como vencedores com 51,17% dos votos, seguido da União Nacional para a Independência Total de Angoa (UNITA) com 43,95%.
Com estes resultados, o MPLA elegeu 124 deputados e a UNITA 90 deputados, quase o dobro das eleições de 2017.
O Partido do PRS e o estreante Partido Humanista de Angola (PHA) elegerem dois deputados cada.
A CASA-CE, a Aliança Patriótica Nacional (APN) e o P-Njango não obtiveram assentos na Assembleia Nacional, que na legislatura 2022-2027 vai contar com 220 deputados.
A UNITA juntamente com o Bloco Democrático (BD) interpôs um recurso contencioso eleitoral junto do Tribunal Constitucional angolano apontando alegadas “irregularidades no processo”, cujo acórdão deve ser tornado público hoje, quando o órgão não deu provimento ao recurso da CASA-CE.
DYAS // JH
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