
Praia, 22 dez 2025 (Lusa) — O Pentalina B está naufragado há onze anos e meio perto de Moia Moia, na costa leste da ilha de Santiago, Cabo Verde, e a população já se habitou a conviver com o navio defunto e os curiosos.
“As pessoas chegam cá e perguntam: onde está o Pentalina? Nós mostramos o caminho, eles tiram fotografias e até já vieram artistas para fazer vÃdeos”, explica Flávio Carvalho, 29 anos, residente na aldeia, trabalhador agrÃcola e da construção.
Os residentes também costumam passear pelos destroços: “vamos lá, entramos, passeamos dentro do navio, tomamos banho no mar, ao lado, fazemos piqueniques. Para nós, pode ficar ali, porque atrai muitos turistas”.
“As pessoas chegam aqui porque viram na Internet e vão dizendo umas à s outras”, descreve.
Mas Flávio reconhece que, com o passar dos anos, a ferrugem, a estrutura corroÃda e o casco arrancado por desconhecidos tornam o Pentalina “mais perigoso, porque está a cair”.
Da aldeia até ao barco, o percurso é feito de carro, em modo o todo-o-terreno, durante uns 10 minutos — ou numa caminhada a pé de cerca de meia-hora.
Quem ali habita, como Vanilson, jovem de 15 anos, com a sua bicicleta, sabe as coordenadas, para evitar valas ou outras surpresas.Â
Hoje é ele que vai à frente.
Após a última curva, o Pentalina salta à vista: é uma gigante carcaça com 74 metros de comprimento por 13 de largura, com diferentes andares que acolhiam passageiros e largas áreas para carga e veÃculos.
Os registos disponÃveis na Internet mostram que o navio foi construÃdo na Escócia, na década de 1970, onde serviu como “ferry” entre várias ilhas do paÃs, até ser substituÃdo e vendido para uma empresa que fazia ligações interilhas em Cabo Verde.
Numa dessas ligações, em 05 de junho de 2014, quando já se aproximava da capital, Praia, o navio encalhou, durante a noite, no local onde hoje se encontra.
Levava carga e 85 pessoas a bordo e todas foram retiradas da embarcação, após um valente susto, com um estrondo na escuridão que inclinou o navio, um episódio retratado ao longo do tempo em várias publicações.
Maria Moreira, 69 anos, moradora em Moia Moia, lembra-se bem daquela noite.Â
“Um senhor que mora mais na ponta da aldeia é que nos avisou. Encontrámos pessoas a chorar, com crianças. Os que conseguiram, começaram a saltar, Levámos roupa, demos apoio” até chegar “ajuda da cidade da Praia”, recorda.
Depois do naufrágio, foi improvisada uma estrada e uma rampa, com terra e pedras do local, para remover toda a carga: as aplicações na Internet com histórico de imagens de satélite mostram a evolução do sÃtio.
Os meios de comunicação locais deram conta de diligências para tentar remover, reparar e colocar o Pentalina B de novo ao serviço, mas o que está à vista são destroços corroÃdos e largos pedaços de chapa arrancada — cortes recentes, que não surgiam em vÃdeos publicados no YouTube, em 2021, por exemplo.
Na noite do naufrágio, “ajudámos as pessoas a sair, havia muita gente”, lembra João Fonseca, 59 anos.
“No momento, deviam tê-lo retirado dali”, ao navio, mas agora é indiferente, diz: “de vez em quando, chegam pessoas para tirar fotografias e nós também lá vamos pescar, ver como está”.
Um casal espanhol aproxima-se do barco. Deixaram o carro na aldeia e caminharam, acompanhados por uma pessoa com quem estabeleceram contacto na Internet e que conhece o caminho para o Pentalina.Â
“Estamos a passar uma semana na ilha de Santiago, à procura de sÃtios que não tenham turismo massificado e vimos este na Internet. Parece-nos muito interessante, sobretudo pela paisagem. É impressionante estarmos aqui sozinhos”, descreve Rodrigo Vasquez.
“Vamos nos aproximar o máximo possÃvel”, descreve o jovem de 24 anos, a caminho do Pentalina.
A Lusa tentou obter informação adicional sobre a situação do navio junto das autoridades cabo-verdianas, nomeadamente através do Instituto MarÃtimo Portuário (IMP), mas não obteve respostas.
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