
Berlim, 16 ago 2021 (Lusa) — A chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou hoje que ela e a comunidade internacional se enganaram por completo ao avaliarem a situação no Afeganistão e calcularem como poderia evoluir após a saÃda das tropas internacionais.
Merkel emitiu estas declarações numa comparência perante a imprensa convocada de urgência para avaliar a situação no Afeganistão, de onde a Alemanha está a tentar, apesar do caos que reina desde que os talibãs entraram no domingo em Cabul, retirar os seus cidadãos e os afegãos que colaboraram durante anos com as suas tropas e pessoal diplomático.
“Todos – e por isso também assumo a minha responsabilidade — avaliámos erradamente a situação. Toda a comunidade internacional deu como certo que poderÃamos prosseguir com a ajuda ao desenvolvimento” no Afeganistão, afirmou.
A chanceler classificou os acontecimentos dos últimos dias, que culminaram com a tomada de Cabul pelos talibãs, como “amargos, dramáticos e horrÃveis”, considerando que a intervenção internacional além das operações antiterroristas foi “um esforço sem êxito”.
Segundo Merkel, a intervenção dos Estados Unidos e seus aliados durante quase 20 anos no Afeganistão fez com que atualmente não se possa preparar naquele paÃs um atentado terrorista como o de 11 de Setembro de 2001.
No entanto, todos os esforços internacionais para criar um Estado democrático e de direito “não foram conseguidos como nós o tÃnhamos proposto”.
É uma “lição amarga” para milhões de afegãos que apostaram numa “sociedade livre”, em “democracia, educação e direitos das mulheres”, observou.
A chefe do executivo alemão indicou que, além dos cidadãos nacionais no paÃs, Berlim está a trabalhar para retirar todos os afegãos que colaboraram com o exército e a polÃcia alemães, um grupo de cerca de 2.500 pessoas, 1.900 das quais já se encontram na Alemanha e noutros paÃses.
“Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para os retirar do paÃs”, assegurou.
Merkel sublinhou que a tomada de poder pelos talibãs no Afeganistão gerará uma onda de refugiados e que será preciso ajudar os paÃses vizinhos para estabilizar a situação e não desencadear uma crise de migrantes como em 2015.
Por isso, adiantou que os lÃderes da União Europeia deverão reunir-se num conselho europeu extraordinário para acordar como ajudar os paÃses vizinhos do Afeganistão.
A chegada dos talibãs a Cabul no domingo precipitou a saÃda do paÃs do Presidente afegão, Ashraf Ghani, após terem tomado o controlo de 28 das 34 capitais provinciais em dez dias, e sem grande resistência das forças de segurança governamentais, no âmbito de uma grande ofensiva iniciada em maio — altura em que começou a retirada das tropas norte-americanas e da NATO do paÃs, que deverá ficar concluÃda no final deste mês.
Um porta-voz do movimento islâmico radical, que governou no Afeganistão entre 1996 e 2001, disse no domingo à televisão pública britânica BBC que os talibãs pretendem assumir o poder no Afeganistão “nos próximos dias”, através de uma “transição pacÃfica”, 20 anos após terem sido derrubados por uma coligação liderada pelos Estados Unidos, pela sua recusa em entregar o lÃder da Al-Qaida, Osama bin Laden, após os atentados de 11 de setembro de 2001.
Hoje, numa mensagem de vÃdeo, o ‘mullah’ Baradar Akhund, chefe do gabinete polÃtico talibã no Qatar, fez a primeira declaração pública de um lÃder talibã após a conquista do paÃs, anunciando o fim da guerra no Afeganistão, com a vitória dos talibãs, após a fuga no domingo do Presidente Ghani, e a tomada de Cabul.
Com a partida de Ghani, um grupo de lÃderes polÃticos formou o Conselho de Coordenação para a transição de poder para os talibãs, composto pelo ex-presidente afegão Hamid Karzai, o presidente do Alto Conselho para a Reconciliação, Abdullah Abdullah, e o lÃder do partido Hizb-e-Islami e antigo senhor da guerra, Gulbuddin Hekmatyar.
No entanto, os talibãs não forneceram, até agora, informações sobre como funcionará o processo de transição ou a tomada do poder.
ANC // EL
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