
Nações Unidas, 23 abr 2023 (Lusa) – A visita à s Nações Unidas (ONU) do ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, na segunda e terça-feira, focar-se-á em temas como o acordo dos cereais ou o “verdadeiro multilateralismo”, enquanto prossegue a invasão russa da Ucrânia.
Lavrov viajará para Nova Iorque no âmbito da presidência russa do Conselho de Segurança da ONU – durante o mês de abril – e presidirá a dois debates, sobre o multilateralismo e o Médio Oriente.
O chefe da diplomacia russa não perderá a oportunidade para discutir diretamente com o secretário-geral da ONU, António Guterres, a continuidade do acordo dos cereais do Mar Negro e o descontentamento de Moscovo com a falta de cumprimento de certos aspetos da iniciativa.
“Lavrov espera presidir a duas reuniões, uma sobre multilateralismo e outra sobre o Médio Oriente, ambas abertas a debates. As duas questões são atuais. O verdadeiro multilateralismo e o falso multilateralismo estão a ser amplamente discutidos, referidos e interpretados de forma diferente pelos Estados-membros da ONU”, anteviu o embaixador russo junto à ONU, Vasily Nebenzya.
“GostarÃamos de falar sobre o que consideramos ser o verdadeiro multilateralismo”, adiantou o diplomata, cujo paÃs invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022.
De acordo com Nebenzya, uma conversa com Guterres sobre a continuidade do acordo dos cereais também “é devida”, num momento em que a Rússia admite não prolongar o acordo, caso não se verifiquem progressos no cumprimento de compromissos no quadro do memorando entre Moscovo e a ONU.
“Como já dissemos inúmeras vezes, não vemos avanços que nos assegurem que a iniciativa seja implementada em ambas as vertentes. Porque existem duas vertentes: o acordo de exportação de cereais da Ucrânia e o memorando de entendimento que prevê a exportação de cereais e fertilizantes russos, que não está a ser implementado apesar de todos os esforços do secretário-geral” da ONU, alegou Nebenzya a jornalistas.
“É claro que essa conversa e diálogo acontecerão quando o ministro Lavrov se encontrar com o secretário-geral Guterres”, na próxima segunda-feira, assegurou o diplomata.
Ainda sobre a deslocação de Lavrov aos Estados Unidos, Nebenzya não descartou um encontro entre o ministro russo e autoridades norte-americanas, se estas o solicitarem, mas garantiu que nada foi agendado até ao momento.
“Não fugiremos de nenhuma reunião. Se houver disposição por parte dos Estados Unidos, não fugiremos de tal encontro”, disse Nebenzya.
A Rússia, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança e com poder de veto, assumiu este mês a presidência rotativa do órgão, que tem capacidade de fazer aprovar resoluções com caráter vinculativo.
Envolvida em fortes crÃticas, a missão russa anunciou dois eventos durante a sua liderança: um debate aberto sobre a exportação de armas e equipamentos militares; e um debate de nÃvel ministerial, presidido por Lavrov, sob o tÃtulo “Multilateralismo eficaz através da defesa dos princÃpios da Carta da ONU”, que contará com um ‘briefing’ de Guterres.
Contudo, têm sido algumas reuniões insólitas que têm chamado a atenção internacional, como a realizada em 05 de abril, quando Nebenzya acusou Portugal, Espanha e Alemanha de terem retirado “centenas” de crianças ucranianas à s suas mães para as colocar em estruturas de acolhimento nos respetivos territórios, declarações que foram repudiadas pelo Governo português.
Essa reunião aconteceu menos de um mês após o Tribunal Penal Internacional (TPI) ter emitido um mandado de detenção para o Presidente russo, Vladimir Putin, por crimes de guerra, precisamente pelo seu alegado envolvimento em sequestros de crianças na Ucrânia.
Até ao momento, a presidência russa do Conselho de Segurança tem sido a mais controversa na memória de antigos diplomatas e funcionários da ONU ouvidos pela agência Associated Press (AP).
Em março, o representante permanente da Ucrânia junto das Nações Unidas, Sergiy Kyslytsya, apelou publicamente à organização para que não permitisse a presidência russa, mas sempre sem sucesso.
Uma vez que não conseguiu travar a presidência russa, Kyslytsya espera agora que Guterres use o seu encontro com Lavrov para “reafirmar” a sua posição pessoalmente.
“Se Lavrov não for parado no seu caminho para Nova Iorque num dos paÃses do Estatuto de Roma, António Guterres terá a oportunidade de reafirmar a sua posição pessoalmente a Lavrov. A posição agora é guiada por resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas apoiadas pela esmagadora maioria dos Estados-membros”, disse Kyslytsya em declarações à cadeia de televisão CBS.
MYMM // PDF
Lusa/Fim



