
Penafiel, Porto, 29 out 2021 (Lusa) – O ministro da Cultura de Cabo Verde afirmou hoje que “a Lusofonia não é apenas uma conversa sobre a lÃngua portuguesa” e “encontros de chefes de Estado”, defendendo que devia ser “um espaço pragmático” de cooperação económica.
“A Lusofonia não é apenas uma conversa sobre a lÃngua portuguesa, deve ser uma conversa sobre a colaboração entre as instituições museológicas, de investigação e universitárias, sobre a cooperação mais aprofundada a nÃvel económico”, afirmou o ministro Abraão Vicente, em entrevista à agência Lusa.
O ministro está em Penafiel, no distrito do Porto, para participar no festival literário Escritaria, que está, por estes dias, a homenagear o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, prémio Camões em 2018.
Na quarta-feira, também em declarações à Lusa no inÃcio do festival, o autor disse não gostar da expressão Lusofonia, considerando que a lÃngua portuguesa não representa “uma cultura lusófona”.
“Eu não gosto muito da expressão lusofonia. Somos escritores de diversos paÃses que usam a lÃngua portuguesa como lÃngua de contacto, como lÃngua de expressão, mas não é uma cultura lusófona”, afirmou.
Questionado sobre o assunto, o governante cabo-verdiano responsável pela pasta da cultura disse hoje que “a Lusofonia existe”, mas assinalou que “a CPLP [Comunidade dos PaÃses de LÃngua Portuguesa] e todas as instituições ligadas a essa tal lusofonia têm que ser concretizadas em polÃticas que os cidadãos consigam vivenciar”, nomeadamente, no domÃnio cultural, na “capacidade de circulação dos criativos, dos autores e das suas obras”.
Abraão Vicente recordou que durante a presidência da CPLP, que terminou no ano passado, o seu ministério propôs a criação de “um mercado da cultura, artes e indústrias criativas”.
À Lusa, explicou que essa ideia tem como propósito “criar uma plataforma comum, onde as obras pudessem circular, mas também os autores terem acesso ao espaço lusófono”.
“Enquanto um moçambicano, um angolano ou um cabo-verdiano tiver dificuldades em ter um visto para entrar em Portugal ou no Brasil temos um problema com a Lusofonia”, apontou.
Para o ministro, “a Lusofonia não pode ser apenas um espaço emocional, tem de ser um espaço pragmático, onde as pessoas conseguem vivenciar, conseguem circular, conseguem negociar os produtos que há em cada um dos territórios”
Como acrescentou à Lusa, “é preciso falar de forma mais pragmática”.
“A Lusofonia não existirá enquanto for apenas encontros de chefes de Estado e de governantes. É preciso que os cidadãos consigam sentir as vantagens de termos um território de milhões de habitantes”, reforçou, concluindo: “Cabo Verde, como pequeno território de 500 mil habitantes, tem todo o interesse que essa lusofonia também se transforme num espaço económico, num espaço de negócios e onde os cidadãos possam escolher livremente qualquer um dos territórios para viver e para fazer as suas atividades”.
Em Penafiel, o governante cabo-verdiano participa na conferência “O papel da Lusofonia | À conversa com Germano Almeida e Abraão Vicente”, além de outras iniciativas incluÃdas na programação oficial do festival, até domingo.
O evento literário inclui dezenas de atividades dedicadas ao livro, ao teatro, a exposições, à música e à arte de rua.
No sábado, será lançado o novo romance de Germano Almeida, “A Confissão e a Culpa”, o último volume da sua Trilogia do Mindelo.
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