Fachada de prédio de Maputo transformada em mural gigante para levar arte aos bairros

Maputo, 02 nov 2026 (Lusa) – Com quase 20 metros de altura e visível à distância, o mural pintado por Sebastião Coana no centro de Maputo é uma homenagem à cultura moçambicana, mas também uma forma de criar oportunidades para jovens dos bairros pela arte.

Durante semanas, moradores, comerciantes e automobilistas que circulam pela movimentada Avenida de Malhangalene, uma das principais artérias do centro de Maputo abrandaram o passo para acompanharem a transformação de uma fachada de todo um edifício, num enorme painel de cores.

Alguns observavam a evolução da obra em silêncio, outros aproximavam-se para fazer perguntas e houve quem passasse diariamente apenas para ver o que tinha mudado desde a véspera. No topo dos andaimes estava Sebastião Coana, artista plástico moçambicano, de 39 anos, a dar forma ao enorme retrato de Xidiminguana, referência incontornável da música moçambicana, nomeadamente a marrabenta.

Mas, enquanto as tintas davam vida à imagem do músico, o artista procurava também deixar outra marca: a ideia de que a arte pode transformar vidas e criar oportunidades para quem cresce longe dos circuitos tradicionais da cultura.

“Sempre sonhei em usar a arte para o bem da sociedade onde eu vivo”, conta à Lusa, acrescentando que encontrou nos pincéis não apenas uma profissão, mas também uma forma de retribuir as oportunidades que recebeu ao longo da vida.

A convicção nasceu muito antes deste mural.

Natural da Manhiça, a cerca de uma hora de viagem da capital, Coana mudou-se ainda criança para Maputo e foi nas escolas públicas que frequentou que os professores começaram a notar o aluno que passava boa parte do tempo a desenhar.

“Os meus professores encorajaram-me muito a continuar a desenhar”, assinala, lembrando que, numa família com poucos recursos, a arte deixou rapidamente de ser apenas um passatempo.

Para Coana, os primeiros concursos escolares representavam uma oportunidade rara para obter algum dinheiro e responder a necessidades básicas do dia-a-dia: “Recordo que o meu primeiro prémio de pintura usei para comprar roupa de educação física e sapatilhas para fazer educação física na escola. Eu não tinha, fazia descalço”.

Enquanto muitos colegas viam os concursos como uma atividade extracurricular, para o artista aqueles prémios tinham um significado muito para além do reconhecimento escolar.

“Foi a minha única alternativa de sobrevivência para comer em casa, para vestir e para comprar material escolar. Foi graças à arte”, diz, regressando a um período em que os concursos de pintura ajudavam a responder a necessidades básicas do quotidiano.

A partir daí decidiu apostar seriamente no desenho e na pintura. Ainda adolescente começou a participar em iniciativas culturais e a procurar espaços para expor os seus trabalhos, mas o caminho esteve longe de ser fácil.

Quando decidiu organizar a primeira exposição individual, enviou dezenas de pedidos de apoio a empresas e instituições, mas a resposta foi desanimadora.

“Submeti mais de 100 cartas de pedido de apoio para realizar a minha primeira exposição individual de pintura e todas foram rejeitadas”, relata, acrescentando que guardou algumas dessas respostas. “Algumas ainda guardo. Elas serviram de energia para mim, para que eu tivesse de continuar para a frente”.

Hoje, os murais de Coana em Maputo são mais do que obras pintadas em fachadas urbanas. Em cada projeto, o artista procura envolver jovens das comunidades onde trabalha, ensinando técnicas de pintura mural e acompanhando-os ao longo do processo de criação.

“Este mural foi pintado com a participação de jovens residentes aqui nos bairros, em forma de um ‘workshop’, para eles aprenderem como pintar murais, para que um dia eles também continuem a pintar nos seus bairros e ganhem vida através da arte”, explica.

Segundo o artista, os jovens envolvidos participam em todas as etapas da execução do mural, desde a preparação da parede até aos acabamentos finais. A maior satisfação, diz, está em perceber que a experiência pode abrir novos caminhos para alguns participantes, tal como a arte abriu portas para si quando ainda era estudante.

“Espero que eles consigam executar o que aprenderam nas suas comunidades para ganharem o pão através das artes”, afirma.

A frase resume uma preocupação que atravessa grande parte do seu trabalho: a de que muitos talentos acabam por ficar pelo caminho por falta de oportunidades, apoio ou referências.

“É possível fazer arte e viver da arte enquanto estando em Moçambique”, defende.

É uma filosofia que procura repetir em quase todos os murais que pinta, dentro e fora de Moçambique. Mais do que deixar uma imagem marcada numa parede, Coana quer deixar competências e confiança em quem participa nos projetos, sobretudo entre os jovens que procuram desenvolver o próprio talento.

“São murais que educam. Nós chamamos de murais falantes”, explica, acrescentando que “o mural revitaliza a estética de um edifício e de uma rua, trazendo um senso de orgulho para os moradores”.

A homenagem a Xidiminguana insere-se nessa visão. Para o artista, existe algo de especial quando uma forma de arte presta tributo a outra.

“Eu próprio escutava as músicas de Xidiminguana. Hoje é uma honra poder trazer essas músicas, essa imagem dele numa obra de arte vibrante”.

“Os artistas aparecem e passam e quando a gente consegue ter uma outra arte a homenagear outro ramo das artes é um casamento que a gente consegue criar”, acrescenta.

Entre os moradores, o mural tornou-se rapidamente um novo ponto de referência, como é o caso de Francisco Gundana. Residente na zona desde 1993, vê no colorido e enorme mural uma mensagem importante para as gerações mais novas.

“É uma inspiração para os jovens”, conta.

“Os jovens têm de mostrar o saber que têm e aplicarem. É uma coisa muito bonita”, acrescenta, considerando que a obra transmite uma mensagem positiva às novas gerações.

Enquanto já planeia novas homenagens a figuras da cultura, da ciência e das artes moçambicanas, Coana insiste que o verdadeiro legado dos murais não está apenas na tinta aplicada às paredes.

“A arte pode ser um objeto de fazer o bem para o planeta”, afirma.

E é essa ideia que espera deixar gravada na memória dos jovens que, durante semanas, seguraram pincéis ao seu lado e ajudam a transformar uma parede comum numa obra capaz de contar histórias, despertar orgulho e alimentar sonhos.

*** Lina Cebola (texto e fotos) e Fernando Cumaio (vídeo), da agência Lusa ***

 

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