Fragmentação da UE tem dificultado avanços na inovação — Enrico Letta

Lisboa, 31 out 2026 (Lusa) — A fragmentação ligada à existência de 27 países na União Europeia (UE) tem dificultado avanços na concretização do quinto pilar proposto no Relatório Letta, impedindo a interconectividade na inovação, afirmou à Lusa o ex-primeiro-ministro italiano e autor do documento.

“Temos de ter em conta a quinta liberdade. O intangível é o que nos falta até agora. A quinta liberdade significa uma Europa mais digitalmente conectada. As interconexões são fundamentais. Continuamos a viver numa União Europeia onde temos 27 mercados e não um em conectividade”, disse Enrico Letta.

Letta é o autor do relatório com o seu nome intitulado “Muito Mais do que Um Mercado”, um documento estratégico independente sobre o futuro do Mercado Único da União Europeia, apresentado em abril de 2024 ao Conselho da UE e destinado a aumentar a sua competitividade face a potências como os Estados Unidos e a China.

O relatório defende a integração profunda de setores historicamente fragmentados, como a energia, as telecomunicações e os serviços financeiros, e introduz o conceito de uma “quinta liberdade” focada na investigação, inovação e conhecimento, além de propor a mobilização de poupanças privadas europeias para financiar a transição verde e digital e garantir a coesão territorial através do direito dos cidadãos de prosperarem nas suas regiões de origem.

Nas declarações à agência Lusa, à margem da 10.ª sessão das Conferências do Estoril, que decorreu quinta e sexta-feira no ‘campus’ de Carcavelos da Nova SBE (Universidade NOVA de Lisboa), o antigo primeiro-ministro italiano (2013/2014) admitiu que a UE está “longe dos Estados Unidos”, porque, argumentou, os norte-americanos têm um grande volume de financiamento privado.

“Estamos longe dos Estados Unidos, em primeiro lugar, porque têm grandes fundos financeiros, privados, capacidade que nós não temos. Estamos fragmentados, somos 27 e não um, e isso faz a diferença”, resumiu o autor do documento que propõe reformas estruturais e estratégias para o futuro do Mercado Único da UE.

Letta lembrou que o Mercado Único é conhecido como o das quatro liberdades: de movimento de produtos, serviços, capital e pessoas.

“Essas quatro liberdades estão incompletas. Precisamos da quinta. A quinta liberdade é a liberdade de movimento de inovação, pesquisa, habilidades intangíveis. Coloquei isso no meu relatório porque considero a quinta liberdade fundamental para o futuro da Europa”, explicou, realçando que a atual Comissão Europeia tem já posto em prática algumas novas ideias.

“A Comissão lançou algumas novas ideias sobre o Fundo Horizon, lançou novas ideias sobre o relançamento do Erasmus e sobre muitos outros projetos relacionados com isso, como as alianças universitárias e muitos outros”, enumerou.

Questionado sobre o que falta fazer, Letta, também presidente da Fundação Jacques Delors, defendeu que a quinta regra “precisa de uma abordagem compreensiva, horizontal e multifacetada” relacionada com o que se faz em investigações nas universidades, na educação “mas também na integração dos mercados financeiros”.

“A nível europeu, Maria Luís Albuquerque está responsável pela criação da União de Salários e Investimentos, ou seja, a criação de um novo projeto. Os investimentos no digital, na conectividade, são fundamentais”, concluiu Letta, que se mostrou elogioso em relação à atuação da comissária europeia de Estabilidade Financeira, Serviços Financeiros e Mercado de Capitais da UE.

 *** José Sousa Dias (texto) e Hugo Fragata (vídeo), da agência Lusa *** 

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