Bispo José Ornelas diz que Macau pode ser espaço de diálogo entre China e Vaticano

Macau, China, 30 out 2026 (Lusa) – O bispo da Diocese de Leiria-Fátima, José Ornelas, disse hoje à Lusa que Macau pode servir como espaço de diálogo entre China e Vaticano, numa altura em que vê “vontade de ambas as partes” para aprofundar o entendimento.

“Todos estes lugares [como Macau], até pelos vestígios históricos e documentos que têm, podem começar por parcerias de estudo das questões e de estudo também em lugares que são significativos onde essas coisas se passaram, e com esse espírito para se procurar um diálogo”, disse José Ornelas, que se encontra no território semiautónomo chinês para as celebrações dos 450 anos da Diocese de Macau (1576–2026).

Em 1951, já com Mao Zedong no poder, a excomunhão dos bispos designados por Pequim pelo papa Pio XII levou a China e o Vaticano a cortarem relações diplomáticas.

A China estabeleceu então a Associação Patriótica Católica Chinesa, levando os fiéis a terem de optar entre esta, com bispos nomeados pelo regime, ou a Igreja Católica, leal ao Papa, então na clandestinidade. Nos últimos anos, deu-se uma aproximação dos dois lados, com a assinatura de um acordo para a nomeação de bispos.

José Ornelas fala em sinais de abertura: “daquilo que eu sei e que venho acompanhando, há vontade de ambas as partes”, afirmou, reconhecendo “evidentemente, que há nós que é preciso desatar com cuidado”.

“E podem criar-se espaços que deem, precisamente, para encontrar, do ponto de vista diplomático e da busca de caminhos. Haja pessoas interessadas e capazes de fazer esse diálogo”, referiu.

Para o bispo português, mesmo aqueles em Macau “sem poder”, podem ajudar a reduzir incompreensões. “Tenho conhecimento das minhas passagens por cá de pessoas que serviram de intermediários em muitas coisas destas (…) muitos dos equívocos que tantas vezes se criam é por não se conhecer as realidades e as pessoas”, sustentou.

Ornelas defendeu ainda que a Universidade de São José (USJ) – estabelecimento criado em Macau pela Universidade Católica Portuguesa e a Diocese de Macau – pode contribuir para o diálogo “científico, cultural e histórico” entre diferentes realidades.

“É importante, não só a nível das grandes conversações diplomáticas ou do conhecimento, mas é trazer as pessoas juntas, que se discuta, porque a esses níveis é onde se pode abrir caminho para o verdadeiro diálogo”, disse.

Macau é frequentemente apontado como uma das principais portas de entrada do catolicismo na Ásia Oriental e a diocese de Macau, fundada em 1576 por bula do Papa Gregório XIII, é a mais antiga do Extremo Oriente ainda em funcionamento — a primeira foi a Arquidiocese de Pequim, erguida em 1307, seguida da de Quanzhou, também na China, mas ambas desapareceram ao fim de pouco tempo, por falta de missionários.

Estima-se que existam cerca de 12 milhões de católicos no interior da China. Em Hong Kong, de acordo com a diocese, vivem perto de 400 mil, enquanto a Diocese de Macau aponta para uma comunidade de 30 mil fiéis na cidade.

Ao contrário da China continental, as dioceses das duas regiões administrativas especiais chinesas de Macau e Hong Kong continuam a reconhecer a liderança do Papa e os bispos são nomeados diretamente a partir do Vaticano.

O conceito ‘um país, dois sistemas’, originalmente proposto pelo líder chinês Deng Xiaoping e aplicado pela primeira vez com a transferência de Hong Kong e Macau prevê ao longo de 50 anos um determinado grau de autonomia para as duas regiões, com foco no respeito pelas liberdades e garantias dos cidadãos, nomeadamente liberdade religiosa.

No caso de Macau, a Lei Básica (miniconstituição), estabelece que o Governo “não interfere nos assuntos internos das organizações religiosas”.

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