
Lisboa, 23 out 2026 (Lusa) — A cantora e compositora Mimi Froes edita hoje “Para lá da paisagem”, álbum no qual se apresenta como é, que tem a pop como pano de fundo e uma presença forte de jazz, com a portugalidade à mistura.
Com dois EP, um álbum de originais e um outro ao vivo editados, Mimi (Inês) Froes, de 28 anos, volta às edições discográficas com “Para lá da paisagem”, álbum criado ao longo dos últimos três anos, talvez os mais importantes no seu crescimento enquanto artista, partilhou, em entrevista à Lusa.
“Este disco vem com uma novidade da Mimi mais crescida, com outra noção do que é a vida à sua volta que, mesmo assim, ainda tem muito por onde caminhar”, afirmou.
A primeira canção, das onze que compõem “Para lá da paisagem”, foi composta há três anos. “Estes três anos foram talvez os mais importantes nesse meu crescimento, por todas as razões, entre as quais emigrar [vive atualmente em Londres]. Ao sairmos do nosso lugar, somos obrigados a dar de frente com a verdade de quem nós somos”, disse.
Foi nessa “franqueza” que Mimi Fores descobriu a ideia que dá nome ao disco — “Para lá da paisagem” -, “de chegar também ao outro na mesma franqueza, de me apresentar como sou e de pedir às pessoas que se apresentem como elas são”.
Nas canções que escreve partilha muito de si, embora sinta que tem “um lado que pode ser confuso”. “Às vezes escrevo canções no lugar onde gostava de estar, mas não deixa de ser a minha verdade porque é um desejo puro de querer estar num lugar, ou na fase x ou y. Nós também somos os nossos desejos, portanto acho que em todas as minhas canções pode encontrar-se a verdade do que se passa, do que é, do que foi, do que vejo, mas também por vezes a verdade do que eu gostava que fosse, do que gostava de ver, do que gostava de viver”, partilhou.
Em termos sonoros, o novo álbum tem o pop como pano de fundo, “no sentido da produção deste disco, até mais do que nos outros”. Além disso, “o jazz é um grande amigo, um grande companheiro, nas harmonias, nas escolhas, na extensão da música de cinco minutos”.
“O estilo que vai à frente é o chamado ‘songwriting’ [género no qual a narrativa e a voz são protagonistas]. Como melhores amigos desta escrita de canções vai muito a ideia do pop, do jazz, e não digo o fado, mas a portugalidade. Acho que são assim coisas que andam de mão dada, entram numa ‘bimby’ e depois sai isto”, disse.
Embora o álbum tenha um produtor, Tomás Marques, e Mimi Froes assine a coprodução, os músicos que o gravaram e a acompanham ao vivo (Francisco Brito, Guilherme Melo, Manuel Rocha e Manuel Oliveira) “são super interventivos na produção”.
“Fomos os seis para uma residência artística em Mafra, numa casa super especial, The Groove House, criada por um uruguaio cujo pai, no período da ditadura no Uruguai, tinha uma casa para abrigar artistas. Produzimos lá o disco todos juntos, então há uma sensação comunitária na produção deste disco”, contou.
Em algumas canções de “Para lá da paisagem”, Mimi Froes contou com a ajuda de um coro, composto pelos músicos que habitualmente a acompanham, por amigos e também familiares, pessoas que representam a “comunidade quente e feliz” que a rodeia, numa carreira que nem sempre achou ser possível seguir.
Em pequena cantava canções “até dizer chega”, algumas que escrevia. “Ia para a escola e tinha uma canção para ir para a escola, ensinava o meu irmão mais novo e íamos os dois a cantar para a escola, tinha uma canção para ir jantar, um bocado como se a minha vida fosse um musical”, recordou.
A avó inscreveu-a numa escola de música clássica, que agora percebe que não tinha ainda maturidade para entender, onde esteve dois anos. Com 12 anos, os pais inscreveram-na em aulas de voz.
Embora fosse “muito virada para as artes”, Mimi Froes não tinha ninguém próximo ligado às artes, nem na família nuclear, nem na alargada, nem nos grupos de amigos.
“Fui negando esse caminho, porque achava que não era exequível, em Portugal ou no mundo. Não tinha noção que era uma possibilidade de carreira. Ser músico parecia-me só uma brincadeira, um ‘hobbie'”, partilhou.
Aos 15 anos entrou no concurso de talentos televisivo “X-Factor”, um momento de grande exposição, que acabou por lhe dar algumas almofadas para lidar com o que viria mais tarde.
Na faculdade acabou por optar estudar Direito, mas acabou por começar a sentir “muita falta” da música.
O segundo ano do curso foi dividido entre o estudo das leis e da música. “Acabei o ano estafada, porque são duas áreas muito exigentes, e decidi parar um ano”, contou, partilhando a importância que os pais, “muito impulsionadores de qualquer sonho que os filhos tenham”, tiveram nessa decisão.
No ano em que parou fez um curso de escrita de canções com a cantora e compositora Luísa Sobral, que foi “o maior abre olhos” que teve na vida. Nesse momento percebeu que podia fazer carreira na música.
Luísa Sobral ouviu algumas das canções de Mimi Froes e disse-lhe que produziria um dos discos.
“De repente abriu-se um portão automático à minha frente, e o privilégio de trabalhar com a Luísa foi esse portão brutal, gigantesco. Isso ajudou-me a entrar numa indústria da qual não sabia nada, que é confusa, mas de costas quentes”, disse.
Na música, além de cantora, música e compositora, é também arranjadora e professora de escrita de canções.
Além de escrever canções para si, Mimi Froes já criou também temas para outros artistas, entre os quais Teresinha Landeiro, António Zambujo, Diana Vilarinho, Matilde Cid e Ana Bacalhau.
“Nesta fase fechei a minha agenda de escrever para outros, porque estou muito dedicada ao meu disco, mas é uma coisa que me dá muito ânimo”, disse.
Os concertos de apresentação de “Para lá da paisagem” estão marcados para março, dia 04, em Lisboa, no Centro Cultural de Belém, e dia 10, no Porto, na Casa da Música.
*** Joana Ramos Simões (texto) e André Kosters (foto), da agência Lusa ***
JRS // MAG
Lusa/Fim



