
Porto, 15 out 2026 (Lusa) — Os manifestantes que desde sábado protestam pela habitação voltaram hoje à Praça D. João I, no Porto, com muitas críticas ao presidente da Câmara do Porto, tendo protestado em frente da sede do município por “menos bastão, mais habitação”.
A partir das 19:00, foram muitos, cerca de 2.500, os que se quiseram juntar à manifestação, tanto pelas reivindicações quanto à crise da habitação em Portugal como pelo repúdio pela carga policial ocorrida na última madrugada, que segundo contas da organização deixou 39 feridos, dois deles graves, anunciando a PSP que um polícia ficou ferido.
A concentração arrancou com “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, um espelho da canção que os manifestantes cantavam pouco antes da carga policial da última madrugada.
Os presentes empunhavam cartazes contra o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, e a reivindicar o direito à habitação, entoando palavras de ordem como “O povo unido jamais será vencido” e “Pedro Duarte, demissão”, após declarações do autarca, que prometeu ser “absolutamente implacável” contra as tendas, e do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que hoje pediu aos manifestantes que não fossem “egoístas”.
Nos cartazes, Pedro Duarte era o alvo mais frequente, acusando-o de ser “mais mentiroso do que André Ventura”, do Chega, e pedindo ao “implacável: menos bastão, mais habitação”.
“Abram casas, não cabeças”, “Não deixem o Luís trabalhar”, “O Porto não está à venda” e faixas com “Morto.”, em alusão ao ‘slogan’ Porto. da autarquia eram visíveis pela manifestação, como lamentos por “tanta gente sem casa, tanta casa sem gente” e por “alojamento local, desalojamento nacional”.
A manifestação deslocou-se ainda à Câmara do Porto, ocupando por momentos o terreiro em frente à porta e a praça adjacente, antes de regressarem à praça, para deliberar sobre se mudam de local a acampada, se permanecem, ou montam tendas de novo.
Mariana, que prefere não revelar o último nome, estava na manifestação durante a carga policial e explica à Lusa que “a causa é mais forte”, pelo que regressou, com muitos amigos, com “mais sede de revolução”.
“Éramos 100, 200 pessoas aqui a lutar por um direito que é universal. Todas as pessoas no mundo merecem um teto digno. Há, infelizmente, pessoas que não o têm, e é ultrajante como é que o nosso presidente, Pedro Duarte, foi capaz de recorrer a este nível de violência para manifestantes pacíficos”, lamenta.
José Soeiro, ex-deputado à Assembleia da República pelo Bloco de Esquerda, conta-se entre as dezenas que foram agredidas na carga policial, tendo visto o regresso, hoje, de tanta gente como uma mostra “da força da solidariedade”.
“A acampada ajudou a colocar não apenas o problema, mas alguns dos caminhos em cima da mesa. Na questão das rendas, dos despejos, dos imóveis devolutos que estão vazios e que deviam ser dedicados à habitação. Do papel dos fundos abutres numa cidade como o Porto e noutras cidades. E é bom lembrar que nós estamos aqui neste momento, mas há dezenas de acampadas a acontecer em inúmeras cidades da Europa”, comenta.
Essas acampadas, sobretudo em Espanha, mostram que o Porto “não está sozinho”, mas, por outro lado, “não há uma única pela Europa que tenha tido uma carga policial como a que o Porto teve”.
“No caso do Porto, totalmente violenta, desproporcional, absurda, para cumprir aquela ameaça do Presidente da Câmara de que ia ser absolutamente implacável com uma manifestação cidadã e perfeitamente legítima”, critica.
Se centenas regressaram para instalar um protesto em que têm participado desde sábado, eram muitos mais os que compunham as cerca de 2.500 pessoas que vieram pela primeira vez.
Entre elas estava Ricardo Costa, que veio por repudiar “completamente o que se passou” na madrugada, contra “uma manifestação pacífica”, em ação policial que teve “o compadrio e os elogios do presidente da câmara e do primeiro-ministro”, Luís Montenegro.
“Algo muito grave se passa neste país. E as pessoas têm que sair à rua e têm que mostrar a sua indignação e vir apoiar as causas nobres, como o direito à habitação”, atira.
Diana Mesquita já queria ter passado pelo movimento, por ser “muito solidária com a causa”, e a última madrugada torna “complicado uma pessoa não ficar revoltada”.
Também a revolta com a carga policial trouxe Pedro Sarmento à rua, por “dever cívico”, patente na bandeira de Portugal que trazia aos ombros.
“Trouxe-a porque acho que tem havido muita discussão nas redes sociais, por todaa parte, que esta manifestação tem sido levada por temas não relacionados com a habitação. (…) São temas muito válidos, mas não é isso que está aqui em causa, o que está aqui em causa é a habitação em Portugal, a qualidade de vida das pessoas que moram em Portugal hoje”, atira.
O movimento pela habitação que tem protestado no Porto denunciou hoje uma carga policial, esta madrugada, que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave.
De acordo com o movimento, entre os feridos está uma pessoa com deficiência e vários participantes na concentração foram hospitalizados.
Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, que foram retiradas pela polícia, depois de o presidente da Câmara do Porto ter dito na quarta-feira que seria “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I”.
O movimento apresenta seis reivindicações principais: “abaixo a lei das rendas; fim dos despejos; fim da compra de imóveis por fundos abutres; mais habitação pública; recuperação de imóveis devolutos para habitação; tetos às rendas”.
Na nota de hoje, o movimento “denuncia veementemente o uso de força extrema, desproporcional e injustificada durante a intervenção policial na acampada, que se manteve, desde o primeiro momento, pacífica, sem nunca incitar à violência”, considerando a carga “inaceitável” e pedindo responsabilidades.
A PSP confirmou, entretanto, um polícia ferido e a existência de feridos entre os manifestantes, sem precisar quantos, atribuindo a razão da intervenção a “comportamentos de resistência”.
O presidente da Câmara do Porto disse hoje que a PSP se viu “forçada” a atuar, perante a atitude dos manifestantes, tendo lamentado o incidente.
Na quarta-feira, numa assembleia popular, as pessoas votaram por manter o protesto e voltar a dormir em tendas, manifestando o grupo vontade de “continuar a crescer e não só no Porto”, apelando a outras cidades, como o que já está convocado para Lisboa no sábado.
Na segunda-feira, a Polícia Municipal retirou cerca de 50 tendas que estavam armadas na praça, fundamentando a câmara que o acampamento ocupava indevidamente o espaço público, levando os manifestantes a dormir ao relento, mantendo o protesto mesmo sem isso.
*** Simão Freitas (texto), Diana França (foto) e André Sá (foto), da agência Lusa ***
SIF (JFO/DD/SB/JCR/PFT/AFG/PM/JE/CCM) // RBF
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