
Macau, China, 15 out 2026 (Lusa) — A Casa de Portugal em Macau está a organizar o festival “Conta-me histórias”, que leva arqueólogos e uma companhia teatral de Tondela a escolas locais, para despertar o interesse pelo património e pela memória.
Na sexta-feira, a Trigo Limpo Teatro Associação Cultural e Recreativa de Tondela (ACERT) leva ao auditório da Escola Portuguesa de Macau (EPM) a peça “Queres que te conte?”.
Ilda Teixeira, que concebeu e interpreta a peça, disse à Lusa que “o espetáculo, basicamente, é um tear, o cenário e uma dobadoira, com lã, e é tudo contado com recurso a novelos de lã”.
Para preparar “Queres que te conte?”, Teixeira foi falar com uma associação que trabalha com linho e com a Universidade Sénior para “ouvir contar histórias, as músicas antigas que os avós lhe cantavam”.
A peça, explicou a atriz, “é tudo muito a ter a ver com as histórias que se transmitiam dos avós para netos e que iam passando de boca em boca. E todo o espetáculo foi construído com base nessa tradição oral”.
“Queres que te conte?” é um dos dois espetáculos do festival abertos ao público em geral. O outro é “O Bosque”, que a Trigo Limpo irá encenar na Universidade de Macau, no domingo.
“Além de ser os nossos espetáculos mais portáteis, trabalham ambos sobre o que é a memória e a passagem da memória”, disse Ilda Teixeira, encenadora de “O Bosque”, interpretada por Pedro Sousa, Ricardo Augusto e Sandra Santos.
A peça é “sobre as memórias antigas de uma cidade, fala sobre as árvores que vão ficando, os edifícios, as moedas que se vão encontrando”, explicou Pedro Sousa à Lusa.
O objetivo, disse o ator, é “deixar sementes para os mais novos e os mais velhos conversarem entre eles”.
“Nós damos a matéria-prima, mas também há trabalho que tem de ser feito pelos pais e pelos professores”, acrescentou.
O festival arrancou na segunda-feira e decorre até 23 outubro, com o Trigo Limpo a levar os dois espetáculos e momentos de formação em representação e música à EPM e à Escola Luso-Chinesa Luís Gonzaga Gomes.
O Trigo Limpo ACERT, que está a comemorar 50 anos de vida, já apresentou espetáculos em países como Angola, Cabo Verde, Brasil, Moçambique, Luxemburgo, Bélgica, Grécia e Alemanha, e irá também à Guiné-Bissau, de 24 de novembro a 01 de dezembro.
Além do teatro, o festival inclui sessões de promoção de arqueologia para crianças, contadas em escolas por Natalina Guerreiro e José Luís Monteiro, ambos funcionários do Património Cultural de Portugal.
Natalina Guerreiro, do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, vai contar histórias de tesouros perdidos no mar devido a dois naufrágios que aconteceram em Portugal.
“Tentamos mostrar que, para arqueologia, o tesouro não é só ouro, porque às vezes, um fragmento de cerâmica pode nos dar muito mais informação sobre de onde ela veio”, explicou Guerreiro.
Já José Luís Monteiro quer apresentar “uma perspetiva da arqueologia não tradicional”, graças às “tecnologias que revolucionaram completamente” este campo de conhecimento.
Há situações “em que já nem é necessário escavar, porque temos tecnologia que nos consegue identificar o que está no solo”, incluindo drones, fotografia área e modelos a três dimensões a partir de fotografia de objetos, disse.
Mas mais do que encorajar futuros arqueólogos, o objetivo é “tentar motivar e incentivar os miúdos para as questões do património, seja ele arqueológico ou qualquer património cultural”, sublinhou Monteiro.
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