Dança folclórica portuguesa património de Macau atrai mais chineses

   *** Vítor Quintã (texto) e Gonçalo Lobo Pinheiro (fotos), da agência Lusa ***

Macau, China, 11 out 2026 (Lusa) — Um ano depois da dança folclórica portuguesa se tornar património de Macau, a líder de um grupo disse à Lusa que há mais convites para espetáculos, mas que são os chineses que mais querem aprender.

Em 13 de outubro de 2025, Macau anunciou a inscrição de 12 manifestações, incluindo a dança folclórica portuguesa e os pastéis de nata locais, inspirados no pastel português, na Lista do Património Cultural Intangível da região.

O efeito já se faz sentir, com “muito mais convites” para atuações, incluindo na China continental, diz a presidente da Associação de Danças e Cantares Portugueses ‘Macau no Coração’, a macaense Ana Manhão Sou.

Os macaenses são uma comunidade euro-asiática, composta sobretudo por lusodescendentes, com raízes no território.

Ironicamente, diz Selina, a única funcionária a tempo inteiro da associação, é em Macau que o número de espetáculos diminuiu em comparação com antes da pandemia de covid-19.

“Há cerca de 10 anos, ainda tínhamos a oportunidade de atuar todos os domingos”, nas Ruínas de S Paulo, o ex-líbris de Macau, junto ao Templo de A-Má, o mais importante da cidade, e perto das Casas-Museu da Taipa, recorda Selina.

A região recebeu quase 29 milhões de visitantes até agosto, mas os turistas “não têm hipótese de ver como é, de facto, a dança folclórica portuguesa em Macau”, lamenta. “É até um pouco triste”.

Durante as atuações do outro lado da fronteira, muitos espetadores “ficam confusos” revela Selina, “e perguntam se somos de Xinjiang”, uma província no noroeste da China, origem da minoria muçulmana uigur.

“Temos de lhes explicar um bocadinho da história de Macau”, diz.

Também Davy, 62 anos, membro do rancho Macau no Coração, lamenta que a comunidade macaense continue a ser desconhecida na China continental.

“Quero preservar a cultura. Como a dança [folclórica] vem de Portugal e aqui a cultura é chinesa, eu poder dançá-la é algo que valorizo muito”, diz o bailarino.

Davy chegou ao Macau no Coração por acidente. “No início, não sabia o que era a dança portuguesa, não sabia mesmo do que se tratava”, admite, quase 20 anos depois.

Como em geral no mundo da dança, os homens continuam a ser uma minoria no grupo, confirma Ana Manhão Sou, com um sorriso: “são santos, a gente não os chateia e eles até podem dizer o que querem comer”.

Antes de um ensaio, Manhão Sou diz que o grupo, que está a comemorar 20 anos de existência, mudou “um bocadinho a estratégia” depois da pandemia, face às dificuldades em atrair pessoas para aprender a dançar.

“Começámos a entrar em escolas, para atrair a nova geração”, diz a dirigente, dando como exemplo a Escola Portuguesa de Macau. “Vêm os meninos pequeninos e vêm os pais. Dois pelo preço de um”, explica, com um sorriso.

Desde a listagem como património, o grupo tem feito “seis ou sete” workshops por ano em escolas locais, de infantários a universidades, diz Selina.

“Há vozes a dizer que são os chineses que estão a dançar. Eu percebo, mas onde estão os portugueses que queiram dançar? Não digo que não há, mas é que eu não consegui encontrar. A porta está aberta”, sublinha Manhão So.

Os censos de 2021 indicam mais de 2.200 pessoas nascidas em Portugal a viver em Macau. A última estimativa dada à Lusa pelo Consulado-geral de Portugal apontava para cerca de 155 mil portadores de passaporte português entre os residentes de Macau e Hong Kong.

Manhão Sou sublinha que são os chineses que mostram maior interesse, incluindo universitários da China continental acabados de chegar a Macau, para os quais aprender dança folclórica portuguesa “até ajuda na integração”.

“Dentro do ‘Macau no Coração’ nós não temos nacionalidade, isso é uma coisa muito simples. Por isso não notamos se é um chinês, um português, há todos, há da Venezuela, há da Colômbia, há tailandeses, há tudo”, diz a presidente.

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