
Port Louis, 07 out 2026 (Lusa) — Os países africanos pagam mais 75 mil milhões de dólares anualmente pela perceção do risco de investir em África, segundo estimativas avançadas hoje pela secretária executiva adjunta da Comissão Económica das Nações Unidas para África (UNECA).
“Os governos pagam mais para se endividar, o investimento torna-se mais difícil de atrair, a escala do fardo é cada vez maior, e as estimativas sugerem que o prémio de risco custa mais de 75 mil milhões de dólares [67 mil milhões de euros] em juros excessivos, o que diverge os recursos, já de si escassos, das prioridades de desenvolvimento, como a saúde, a educação e as infraestruturas”, disse Hanan Morsy.
Na cerimónia de lançamento da nova agência africana de rating (AfCRA, na sigla em inglês), a vice-líder da UNECA destacou a importância dos ‘ratings’ atribuídos pelas agências de notação financeira quando analisam a capacidade de um país ou empresa pagar aos seus credores privados.
“Os ‘ratings’ também enformam as escolhas políticas; durante a pandemia, as preocupações sobre uma descida impediram os países de pedir uma suspensão do serviço da dívida, por isso quando os governos hesitam em usar um mecanismo internacional por causa das possíveis consequências no ‘rating’, isto mostra-nos a necessidade de reavaliar a maneira como são calculados os riscos”, disse Hanan Morsy.
Para esta economista, o lançamento da AfCRA, esta tarde em Port Louis, nas Ilhas Maurícias, onde será a sede da nova entidade, é uma “oportunidade para alargar a informação e as perspetivas disponíveis para os investidores”.
A nova agência, defendeu, traz proximidade, conhecimento das instituições locais e familiaridade com os programas de reformas à medidas que eles são implementados.
E estas são “vantagens comparativas importantes” face às agências tradicionais, que operam a partir dos Estados Unidos, Europa ou Ásia, com pouca implantação em África, afirmou.
Na cerimónia, que contou também com representantes do Mecanismo de Revisão pelos Pares (da ONU), do Banco Africano de Exportações e Importações e do próprio líder da União Africana, foi transversal a ideia de que a nova agência não deverá favorecer os países africanos, sob pena de falhar no teste da credibilidade.
“O objetivo não é ter um tratamento preferencial, mas sim mais precisão, transparência, melhor contexto na avaliação do risco de crédito e dar mais conhecimento e perspetivas para o contexto geral dos ratings, promovendo mais justeza nas análises”, sintetizou Morsy.
A atribuição de ‘ratings’ tem estado em debate nos encontros internacionais sobre as finanças africanas, sobretudo devido à ligação que tem com a capacidade de financiamento dos países da região nos mercados internacionais, já que muitos investidores, principalmente institucionais, ancoram as suas decisões de investimento nestas avaliações aos países.
A nova agência, hoje lançada, é “impulsionada pelo setor privado, autofinanciada e independente”, e não pode ser detida por governos, diz a UA, vincando que “as estruturas de governança privilegiam a transparência, a credibilidade e as salvaguardas contra conflitos de interesses”.
Entre as vantagens, a UA aponta que, para os governos, a agência poderá trazer “condições de financiamento mais justas e melhor acesso aos mercados de capitais”, enquanto para os investidores será possível ter “análises equilibradas e específicas no contexto sobre o risco africano”.
O custo do financiamento dos países africanos nos mercados internacionais é um dos principais temas em debate, não só pelo elevado valor, mas pelo impacto que tem nas economias dos países, já que os governos, com recursos limitados, têm muitas vezes de escolher entre pagar os juros da dívida ou investir no desenvolvimento económico.
“O que está em jogo é significativo: o serviço da dívida externa de África aumentou de 61 mil milhões de dólares [54,5 mil milhões de euros] em 2010 para 163 mil milhões de dólares [145 mil milhões de euros] em 2024, com os pagamentos de juros a excederem a despesa pública com a saúde ou a educação na maioria dos países”, insistiu a UA.
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