
Lisboa, 26 set 2026 (Lusa) – O presidente da Confederação do Turismo de Portugal diz que o setor está saudável, mas que, dada a conjuntura nacional e internacional, é hora de deixar de ter como prioridade o número de turistas e focar na criação de valor.
“O estado de saúde do turismo continua bom. Os crescimentos não têm sido, de facto, os do passado, mas os recordes continuam-se a bater”, começou por afirmar Francisco Calheiros em entrevista à Lusa, por ocasião do Dia Mundial do Turismo que se comemora no domingo, dia 27.
“Temos que contextualizar bem o que é que estamos a falar. De 2009 a 2019, os turistas em Portugal dobraram. Crescimento de 100%. É evidente que quando já estamos a falar de milhões de turistas, milhões de dormidas, não podemos continuar com esta senda de crescimento. (…). De qualquer maneira, os últimos dados disponíveis que temos são os dados a julho de 2026 e continuamos a crescer (…) e, portanto, quer dizer que isto comprova que a saúde do turismo continua boa”, afirmou.
As dormidas no setor do alojamento turístico aumentaram 1,5% para 46,5 milhões até julho, em termos homólogos, tendo os proveitos totais subido 5,3% para 4.073,2 milhões de euros, divulgou o INE em 31 de agosto.
Questionado sobre em qual dos lados se encontra, se das vozes que defendem, numa altura em que o setor está em consolidação, menos turistas e mais receitas através da captação de visitantes com maior poder de compra, ou se dos que receiam que o turismo possa perder força enquanto motor da economia, Francisco Calheiros respondeu: “Claramente do primeiro”.
Para justificar a escolha, o responsável da Confederação do Turismo de Portugal (CTP) elencou várias situações da conjuntura, nomeadamente o facto do aeroporto de Lisboa estar “na sua capacidade praticamente plena” e de o crescimento do número de turistas ter desacelerado.
“Acho que temos que fazer uma alteração agora. Não é o número de turistas e o número de dormidas que deve ser a nossa principal prioridade, a nossa principal prioridade deve ser a criação de valor”, como os dos “Estados Unidos, Canadá, podemos acrescentar Brasil, Polónia, Coreia, são tudo turistas que toda a gente quer. Porque, por um lado, fazem mais pernoitas e, por outro lado, gastam mais. E, portanto, é nessa senda que nós temos que ir (…)”, defendeu.
Como fator crítico lembrou ainda o aumento dos custos de produção, que o setor tem que repercutir e que impacta na decisão de se fazer turismo.
“Isto é algo que todos sabemos e que também impacta com o número de turistas. Às vezes falamos e parece que nos esquecemos que estamos numa crise geoestratégia mundial como há muitos anos não assistíamos. E que tem muito impacto”, disse, invocando “a invasão da Rússia na Ucrânia, que eram duas, três semanas, e vão lá mais de quatro anos”, “o problema do conflito Israel-Árabe e, recentemente, esta questão entre os Estados Unidos e o Irão”.
“O impacto que está a haver é uma coisa perfeitamente aflitiva”, acrescentou, lembrando que mais de 90% dos turistas vêm por via aérea e que as companhias aéreas, “obviamente, têm de aumentar” preços.
“Estamos a falar, às vezes, em taxas de 200 euros por passageiro extra por causa do custo de combustível. Se pensar numa família com dois filhos são 800 euros, dá para pensar duas vezes”.
Assim, admite a necessidade de alteração da estratégia de promoção turística, focando em segmentos mais ‘premium’ em vez da contínua aposta nos mercados tradicionais.
“Acho que faz todo o sentido. (…) No passado havia que ajustar a procura à oferta, neste momento esse ajustamento está feito e, portanto, aquilo que devemos ter, o crescimento a partir de agora deve sempre ser em valor. O valor tem que estar sempre presente nas nossas estratégias, nos planos estratégicos a 10 anos. É para mim, de facto, aquilo que faz mais sentido neste momento”, reforçou.
Sobre as expectativas para 2027, diz que, tendo em conta o contexto internacional, pensa o mesmo que tem dito.
“Isto é muito pouco original e, sobretudo, é um bocadinho de repetição, é muito fraca a minha frase, porque é a que eu digo há dois anos. Se o 2027 for igual ao 2026, já acho que é um ótimo ano turístico, porque não nos podemos esquecer, e já abordámos isto ao longo desta entrevista, da complicadíssima geoestratégia mundial em que estamos inseridos. (…) Hoje em dia, em termos mundiais, o primeiro fator de escolha de um destino, ou de viagem é a segurança. Antes de um preço. E as pessoas hoje em dia não se sentem extremamente confiantes em poder viajar em saída das suas casas. E, portanto, isto é uma restrição extraordinariamente grande”, disse.
Assim, se Portugal “não perder turistas, se mantiver as receitas em 2027 iguais à de 2026, acho que conseguimos ter um ótimo ano turístico”, concluiu.
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