São Tomé/Eleições: Campanhas dão palco e contratos a músicos, muitos emigrados em Portugal

São Tomé, 22 set 2026 (Lusa) — No ano de todas as eleições em São Tomé e Príncipe, as sucessivas campanhas têm dado palco e contratos a dezenas de músicos nacionais, muitos emigrados em Portugal e ‘importados’ para as eleições gerais de domingo.

Contratados pelas campanhas para, sobretudo, fazerem o ‘aquecimento’ do público antes das intervenções dos candidatos, os artistas agradecem a conveniência do dinheiro e a visibilidade de uma ’tour’ improvisada. A maioria afasta qualquer receio com uma colagem partidária.

A prática é antiga, mas a tentação de contratar músicos estrangeiros tem esmorecido, privilegiando-se agora – por convicção ou razões meramente financeiras — a contratação de artistas nacionais. Só este ano, as presidenciais de julho e as eleições legislativas, autárquicas e regional neste mês de setembro deram-lhes sucessivos palcos improvisados em carrinhas de caixa aberta.

Em São João de Colares, no sul de São Tomé, Leo Boca Copa abre a sua atuação, num dia de chuva, com uma música cuja mensagem é a emigração: “Canto diretamente para a minha mãe. Digo-lhe que fui à procura de uma vida melhor e não foi aquilo que imaginei que iria encontrar”.

Com um pé em Portugal e outro em São Tomé, o músico de 41 anos descansa a mãe sobre as dificuldades encontradas no salto migratório: “Digo-lhe que não regresso de mãos vazias, alguma coisa eu trago na mão”. Uma mensagem que encontra ressonância numa juventude que olha para os números recorde de emigração nos últimos anos, muito em especial para Portugal.

Tem mais de 20 anos de carreira, cinco deles com presença em campanhas eleitorais. “No meu caso, (…) trabalho com quem oferece melhor trabalho, melhor cachê. Como já estou com esse partido, eu não posso sair daqui para outro”, explica, saudando o facto de “hoje em dia os partidos trabalharem mais com o artista local”.

As colagens partidárias não o preocupam. “Nós somos do povo, não da política”, resume. “[O] nosso objetivo aqui é ganhar o dinheiro. É o momento que podemos fazer alguma coisa”, acrescenta.

É já de noite no distrito de Caué. Bruna Lee desce da carrinha que fez de palco onde atuou ladeada por duas colunas que varrem o pequeno largo cercado por apoiantes da Ação Democrática Independente (ADI), um dos partidos que disputa as eleições legislativas, autárquicas e regional de domingo em São Tomé e Príncipe.

A contratação para a campanha “ajuda no quesito de a gente voltar para a terra, ver a família que a gente não vê há muito tempo”, grita, procurando sobrepor-se aos decibéis do sistema de som. “É uma oportunidade de aproveitar e nem sempre (…) o nosso mercado cultural, não acompanha por 100% o nosso trabalho. E (…) fazer lembrar que ainda estamos vivos, (…) de mostrar a Bruna Lee que o povo construiu”, diz a artista, também a viver em Portugal.

E preocupa-a ficar associada a um partido? “Não, não preocupa. É um contrato fechado, mas sempre que puder fazer uma participação em algum lugar, [faço-o] com certeza”, sorri a artista de 40 anos.

Mister Payge já esteve em Angola, Cabo Verde e Gabão. Agora está em Portugal. Sempre fez campanhas enquanto esteve em São Tomé. “Eu sempre canto na campanha. E esta foi a primeira vez que eu saí de Lisboa para cá”, adianta, agradecendo a oportunidade “ao segundo maior partido do país, que é o MLSTP [Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe] e “o patrocínio do dr. Américo Barros”, o presidente.

À mesma pergunta sobre as associações partidárias que se possam colar à pele do artista, a mesma negação, com uma nota pragmática: “Não. (…) Da minha parte tudo está bem, tranquilo, tenho um contrato com o partido, espero que o vá cumprir”, diz, de mão pousada nos óculos escuros de hastes coloridas que se fundem com os tons garridos da campanha em Santo Amaro, no distrito de Lobata.

Para Babilónia, músico de 32 anos, essa questão também não se coloca. Desde que emigrou para Portugal em 2022, “esta é a primeira vez” que teve a oportunidade de se juntar à campanha para “a eleição do primeiro-ministro”.

“Eu venho, eles convidam, eu faço o meu trabalho como profissional e pronto, mais nada. Mas não me meto em política. Não me meto mesmo”, sublinha, já no largo principal de São João de Colares, entre o público que o acompanhou nos refrões e o eleitorado que o aplaudiu.

As prioridades estão eleitas: matar saudades da terra e alavancar o que de novo tem para oferecer a quem o segue: “Vou aproveitar e vou fazer o videoclipe, que tenho muitas músicas novas para lançar (…). Aproveitei também, como cheguei cá em São Tomé, para promover o meu trabalho novo”, enquanto não chega às plataformas internacionais onde se vai promovendo, do Youtube ao Tik-tok, passando pelo Instagram.

*** João Carreira (texto) e Estela Silva (fotos), enviados da agência Lusa ***

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