
Maputo, 22 set 2026 (Lusa) — Incidentes associados ao conflito em Cabo Delgado, norte de Moçambique, aumentaram 10% no primeiro semestre, face a 2025, com os raptos a serem cada vez mais usados para resgates e recrutamento forçado, incluindo de crianças, alerta a ONU.
A conclusão consta do relatório “Moçambique: O custo da inação”, divulgado pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), que descreve um agravamento da situação de segurança no norte do paÃs e alerta para o impacto crescente da violência sobre civis.
Segundo o documento, “nos primeiros seis meses de 2026, foram registados mais de 400 incidentes de conflito, 10% mais do que no mesmo perÃodo de 2025”, incluindo episódios como homicÃdios, destruição de habitações, pilhagens e raptos.
Assinala igualmente que os sequestros estão a ser utilizados “de forma cada vez mais sistemática para resgate e recrutamento forçado, incluindo de crianças”, num contexto em que a violência continua a expandir-se para distritos com reduzida exposição prévia ao conflito e capacidade limitada de proteção das populações.
“O alvo desta violência são os civis, e não danos colaterais”, sublinha-se no relatório, advertindo que a insegurança prolongada e as deslocações repetidas estão a fragilizar os mecanismos familiares e comunitários de proteção.
ProvÃncia rica em gás natural, Cabo Delgado é assolada desde 2017 por uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e de 1,2 milhão de deslocados desde então, segundo organizações internacionais.
Segundo o relatório do OCHA, esta situação está a aumentar os riscos de separação familiar, recrutamento e utilização de crianças por grupos armados, violência baseada no género, casamentos prematuros, exploração sexual e outras estratégias de sobrevivência consideradas prejudiciais.
Atualmente, cerca de 1,38 milhões de pessoas vivem com as consequências da deslocação em Cabo Delgado, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil habitantes que regressaram às respetivas zonas de origem.
“Por detrás destes números estão famÃlias repetidamente forçadas a abandonar as suas casas, crianças cuja educação foi interrompida e comunidades cujos meios de subsistência e acesso a serviços básicos foram destruÃdos”, refere a ONU.
No relatório acrescenta-se que “para muitos, regressar a casa não significa regressar à normalidade”, devido à persistência da insegurança, destruição de habitações, perda de meios de subsistência e degradação dos serviços públicos.
A ONU alerta ainda para o agravamento das necessidades humanitárias numa altura em que o financiamento continua insuficiente. Desde logo, aponta, o Plano de Necessidades e Resposta Humanitária para Moçambique necessitava em agosto de 534 milhões de dólares (457 milhões de euros), mas tinha recebido apenas 227 milhões de dólares, o equivalente a 43% do montante requerido.
Segundo o documento, os setores da logÃstica, educação e nutrição figuravam entre os menos financiados, ao passo que, em alguns dos distritos mais afetados pela insegurança alimentar, a assistência alimentar foi reduzida para uma distribuição a cada dois meses, cobrindo apenas 39% das necessidades calóricas mÃnimas.
“O custo da inação é suportado pelas pessoas, e não pelos programas”, refere-se no relatório, defendendo apoio financeiro urgente para evitar um agravamento da crise humanitária. “As lacunas de financiamento significam menos refeições, menos serviços e menos oportunidades de recuperação antes da próxima crise”, acrescenta-se.
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