Lisboa, 19 set 2026 (Lusa) — A cantora moçambicana Selma Uamusse canta a poesia de Noémia de Sousa como um grito de liberdade, identificando nas suas palavras a urgência de libertar um povo das amarras do colonialismo, cujas marcas afirma que ainda hoje se sentem.
“Ainda importa recordar a dor, ainda importa evidenciar as memórias de uma condição de escravatura, de uma condição de opressão que tem consequências ainda hoje, passados 52 anos do fim da ditadura, que tem ainda consequências naquilo que é a nossa sociedade, na forma como nós nos vemos uns aos outros”, disse a artista, em entrevista à agência Lusa.
A propósito do centenário de Noémia de Sousa, conhecida como a mãe dos poetas moçambicanos, a conterrânea Selma Uamusse contou que foi a sua mãe que introduziu a escritora na sua vida, oferecendo-lhe ainda criança um exemplar do livro “Sangue Negro”, com uma dedicatória: “Espero que possas estimar com muito carinho este livro da mãe dos poetas moçambicanos”.
Foi já adulta que começou a ler e a entender, o que também esteve relacionado com o seu processo musical.
“Eu estudei jazz e houve uma altura em que eu quis fazer algumas improvisações com alguns textos de autores moçambicanos e comecei, assim, a dissecar um pouco mais a obra da Noémia de Sousa”, afirmou.
Nas palavras da escritora, reunidas num único livro, encontrou “um clamor por aquilo que provavelmente a Noémia estaria a ver à sua volta e as dores”, que a artista imagina que ela tenha sentido.
“Eu estive em Mafalala [bairro em Maputo onde Noémia nasceu e cresceu] há alguns anos atrás a conhecer um pouco o percurso da Noémia de Sousa e do José Craveirinha. A sensação com que fiquei é que provavelmente terá tido uma vida, se calhar um bocadinho mais privilegiada do que a maior parte dos moçambicanos, mas nem por isso com menos empatia para com a dor do outro”.
O “Sangue Negro” é “uma identidade, mas também um despertar de revolta com tudo aquilo que a Noémia provavelmente veria: os seus pares, os seus irmãos moçambicanos, principalmente os moçambicanos negros a sofrerem, e há textos muito, muito profundos sobre aquilo que era o racismo, a escravatura, mas também sobre a condição das mulheres”.
Selma destaca o poema “Súplica”, que por várias vezes interpretou, e que fala sobre o papel da música naquilo que é a libertação de um povo oprimido.
Se a cantora tivesse uma única palavra para definir o tema desta obra — que reúne poemas escritos entre 1948 e 1951 e foi editado pela primeira vez em 2001, pela Associação dos Escritores Moçambicanos — essa seria “grito”.
“Acho que é um grito muito grande, um grito que fala da dor, mas um grito que também diz que eu tenho direito a ser livre”, afirmou.
E prosseguiu: “É preciso muita coragem, muita ousadia para poder enfrentar um sistema, poder dizer não, poder ultrapassar aquilo que é a censura, ultrapassar, inclusive, aquilo que é o privilégio de se viver de uma forma livre”.
Selma vê em Noémia “a voz daqueles que não tinham voz, a possibilidade de abrir um caminho que não estava trilhado ainda, não apenas para as vozes negras, mas para as vozes das mulheres negras, muitas vezes silenciadas”.
E destaca o seu altruÃsmo, ao não focar a mensagem nela, nem nos seus sentimentos, mas “no todo, no desejo de refletir aquilo que o outro, o irmão, sente, aquilo que o outro passa. Ela calçou muito os sapatos dos outros”.
“Eu venho de uma famÃlia assimilada que escolheu também deixar para trás muito daquilo que era a sua cultura e tradição moçambicana para poder ter um determinado nÃvel social e económico diferente em Moçambique e, muitas vezes, deixando para trás quem se era. E ela teve essa ousadia de não deixar para trás quem era para poder, provavelmente, ser a voz de muitos daqueles que não tinham voz”, disse.
A artista refere que provavelmente muitas das coisas que Noémia escreveu, como o azorrague (“e tudo será novamente nosso, ainda que cadeias nos pés e azorrague no dorso” — poema “Súplica”) e a prisão, não foram por ela vividas, mas “conseguiu encarnar e conseguiu traduzir de uma forma firme e sem máscaras”.
“Não é para todos, não é para todos. (…) Eu diria que se calhar ela está em paralelo com José Craveirinha; são dois grandes autores maiores da literatura moçambicana, nos quais, no fundo, quase todos nós nos baseamos”.
Quando interpreta poemas de Noémia de Sousa, Selma Uamusse raramente consegue ser fiel ao que tinha preparado, assim como conter as lágrimas.
“Quando eu leio as palavras [de Noémia], elas ganham um som. E ganham um som por causa da vida que elas têm. O que eu sinto quando estou a ler, e nem sempre isto acontece com outros autores que eu já tenho tentado musicar, é que as palavras por si só ganham uma musicalidade e um som que é visceral. Há uma visceralidade nas palavras e na composição que eu não creio que tenha sido pensada em música, mas que é extremamente musical e que me faz entrar numa musicalidade que é muito moçambicana”, disse.
*** Sandra Moutinho (texto), Hugo Fragata (vÃdeo) e José Relvas (fotos) Lusa
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