Markus Dohle vê a “fadiga” digital como uma oportunidade para conquistar leitores

Lisboa, 15 set 2026 (Lusa) — O antigo diretor-executivo da Penguin Random House Markus Dohle considera que a “fadiga” das redes sociais está a provocar uma reaproximação aos livros e antevê um “tsunami analógico”, que representa uma oportunidade para editores e livreiros conquistarem novos leitores.

“Há uma espécie de fadiga das redes sociais. As pessoas começam a perceber que fazer ‘scroll’ não as torna mais felizes a prazo e começam a integrar comunidades. Há um tsunami analógico a rolar na nossa direção”, afirmou o editor alemão hoje, durante o Book 2.0, que começou no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa.

Numa conversa com a diretora-geral da Penguin Random House Portugal, Clara Capitão, subordinada ao tema “O poder duradouro do livro”, Markus Dohle defendeu que esta tendência é já visível no “renascimento das livrarias”, independentemente da sua dimensão, incluindo as independentes.

Para o antigo responsável de um dos maiores grupos editoriais mundiais, há “uma grande oportunidade” para o setor aproveitar simultaneamente esta procura pelo analógico e o cansaço provocado pelo digital.

A mudança é particularmente visível entre os jovens, que estão a transformar a leitura numa experiência cada vez mais social, em torno de comunidades, festivais e feiras do livro.

“Nunca vi nada assim”, afirmou Markus Dohle, referindo-se sobretudo ao fenómeno em torno dos livros de romance e fantasia, com jovens dispostos a “gastar mais dinheiro em livros, a frequentar festivais e feiras e a comprar edições de luxo”.

Perante este fenómeno, “a pergunta que me fazem frequentemente é quando é ‘e quando isto acabar?’, em vez de ‘como prolongamos isto? Como levamos estes leitores para os clássicos?'”, acrescentou.

Clara Capitão concordou que “a leitura está na moda”, pelo menos entre os adolescentes, numa tendência que tem sido resumida na expressão “ler é sexy”.

Na opinião da responsável, o desafio passa agora por perceber como transformar aquilo que atualmente é atrativo para os jovens num hábito de leitura permanente.

Markus Dohle relacionou o crescimento de géneros com forte adesão entre leitores mais jovens – como o romance, a fantasia e o chamado ‘young adult’ – com a transformação digital, as redes sociais e, paradoxalmente, a própria “resiliência” dos leitores.

Segundo o antigo responsável da Penguin Random House, estes leitores já não encaram necessariamente a leitura como um ato exclusivamente solitário, procurando partilhar o entusiasmo pelos livros e integrar comunidades, fenómeno que ajuda também a explicar o sucesso das feiras e dos eventos literários.

Apesar de valorizar esta reação dos jovens ao excesso de digitalização, Markus Dohle rejeitou uma oposição entre tecnologia e livros.

Questionado por Clara Capitão sobre se mantinha perante a inteligência artificial (IA) o otimismo que demonstrara anteriormente face a transformações como os livros eletrónicos, as redes sociais ou as compras ‘online’, o responsável respondeu que esse mecanismo pode constituir uma oportunidade para aproximar livros e leitores.

“A IA é a oportunidade de conectar os livros com a tecnologia e chegar aos leitores”, defendeu, considerando que os leitores estão “sedentos da próxima boa leitura” e precisam tanto dos editores, para os orientarem nessa procura, como das livrarias, para lhes fazerem chegar os livros.

O antigo responsável da Penguin Random House mostrou-se igualmente otimista quanto à evolução económica do setor, salientando que, todos os anos, os consumidores gastam mais dinheiro em livros do que no ano anterior.

Já perante os resultados do PISA relativos às competências dos jovens, que classificou como preocupantes, Markus Dohle defendeu que é necessário alterar a narrativa e transformar os indicadores negativos numa “chamada à ação” dirigida aos governos.

Para o editor, é necessário melhorar a educação e o ensino da literatura nas escolas e começar cedo a formar melhores leitores, convertendo assim os resultados negativos numa oportunidade para agir.

Na mesa seguinte do Book 2.0, dedicada a “Construir um ecossistema nacional de leitura”, a especialista britânica em edição Emma House defendeu igualmente a necessidade de mudar a forma como se promove a leitura, substituindo um discurso centrado nos seus benefícios por outro assente no prazer de ler.

“Temos de mudar a narrativa em torno da leitura”, afirmou, defendendo que, em vez de insistir que ler “é importante e faz bem”, é necessário transmitir que “dá prazer”, criando uma relação mais emocional com os livros e a ideia de que “há por aí um livro e uma experiência que são para mim”, em vez de apresentar a leitura como uma obrigação.

A construção de um ecossistema de leitura foi ainda apontada como uma responsabilidade que tem de ser partilhada entre Estado, setor do livro, escolas e famílias, envolvendo medidas como políticas articuladas entre Educação, Cultura, Saúde e Turismo, incentivos fiscais e ‘vouchers’, apoio a livrarias e bibliotecas, maior acessibilidade dos livros e a promoção da leitura por prazer nas escolas.

Na mesa seguinte, sob o mote “Livros além-fronteiras: o panorama editorial”, o diretor-executivo da Galaxia Gutenberg, Joan Tarrida, admitiu que a IA pode constituir uma oportunidade, mas alertou para os riscos da sua utilização na tradução, nomeadamente devido aos identificáveis erros da tradução literal, que podem desacreditar uma editora.

Já a responsável do Grupo Feltrinelli, Alessandra Carra, apontou como ameaça a questão dos direitos de autor, embora tenha destacado a capacidade da IA para processar grandes quantidades de dados e ajudar os editores a tomar decisões, nomeadamente a partir dos dados de consumo e vendas.

A edição de 2026 do Book 2.0 decorre entre hoje e quarta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

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