
Maputo, 14 set 2026 (Lusa) – No coração da Mafalala, bairro de Maputo onde Noémia de Sousa cresceu, jovens poetas apelam a iniciativas para preservar o legado da escritora no ano do seu centenário, incluindo bibliotecas, escolas e até ruas com o seu nome.
“É preciso falar da Noémia e como é que se fala dela? Fazendo o livro da Noémia circular. Já se publicou com muito custo “Sangue Negro?”, seu livro de estreia, mas há muito mais coisas que podem ser feitas”, disse à Lusa o jovem poeta e escritor Álvaro Taruma.
No bairro da Mafalala, onde a poeta e jornalista Carolina Noémia Abranches de Sousa cresceu, Taruma considera que a celebração do centenário da autora é importante por representar a génese da poesia moçambicana e a persistência do seu legado.
Por isso, entende que o nome de Noémia de Sousa deve ser mais exaltado, numa altura em que continua menos celebrada e conhecida do que alguns contemporâneos, como José Craveirinha ou Rui Nogar.
Taruma defende igualmente a divulgação das cartas e correspondências da escritora como forma de aprofundar o conhecimento sobre o seu pensamento e a forma como refletia o país.
O poeta considera ainda importante que as editoras resgatem textos dispersos de Noémia de Sousa e os publiquem em novas edições.
“Estamos num centenário, mas sinto pouco barulho (…) mas é preciso muito mais, até sair destes espaços privados e ir à escola, porque são figuras fundamentais na criação do pensamento da direção ideológico do nosso país e é preciso revisitar estas figuras e compreender com mais profundidade como essas pessoas viam o país”, defendeu.
“Se o nome estiver lá, se as ruas levarem o nome da nossa poeta, as avenidas, as escolas e se as bibliotecas, centro de formação, as pessoas terão curiosidade de procurar saber quem é essa figura que está patente na avenida ou rua”, acrescentou.
Taruma lembra que o primeiro contacto com a escrita da poeta aconteceu no ensino primário, afirmando que essa leitura continua a influenciar a forma como olha o mundo.
“Noémia é uma poetisa que sempre se preocupou pela condição humana, o trabalhador migrante moçambicano para com o trabalho assim escravo nas minas da África do Sul, preocupou-se com o trabalho e a condição da mulher, por isso temos aqueles poemas como ‘As meninas das docas’, preocupou-se com a questão da raça, da negritude, da afirmação de todas as pessoas africanas, moçambicanas, independentemente da sua cor”, afirmou, referindo que são temas que também fazem parte do seu labor literário.
Também o jovem poeta Nick de Rosário disse à Lusa que o nome de Noémia de Sousa deve ocupar o mesmo espaço de destaque que os seus contemporâneos, defendendo a criação de iniciativas permanentes para garantir maior visibilidade à escritora.
“Temos várias casas que acolhem a literatura e um evento que pudesse ser feito em dois dias, mas que a gente só fale da Noémia, que a gente declame textos da Noémia e que se façam mais antologias, que se chamem mais mulheres a escreverem poesia, porque neste momento temos poucas mulheres na poesia”, sugeriu.
Nick conheceu a escrita de Noémia de Sousa no ensino primário, mas foi na universidade que aprofundou o estudo da autora, descrevendo a sua poesia como uma escrita “com muita força”.
“Ela tem aquela literatura da geração dela com muita força, muita vontade e que de certa maneira posso dizer que transformou algumas mentes e a maneira como se encara a poesia moçambicana, então acredito que para ela tem que ser feita uma homenagem à altura”, anotou.
O Museu Mafalala, localizado no bairro onde Noémia de Sousa cresceu, dispõe atualmente de uma biblioteca com o nome da escritora e de uma coleção dedicada à literatura moçambicana. O responsável pelo espaço, Ivan Laranjeira, explicou que a iniciativa procura estimular o gosto pela leitura entre crianças.
“Nós sentimos que de facto a Noémia é muito pouco divulgada, se calhar pelo facto de passar maior parte da sua vida no exílio contribuiu para que não se soubesse mais sobre ela, entretanto, o impacto da sua obra é tremendo e é uma obra rica, tendo em consideração que só publicou um e único livro, mas, mesmo assim, aquilo que ela aborda, a sua poesia é tremendo e continua a ser bastante atual”, disse à Lusa Ivan Laranjeira.
O Museu Mafalala trabalha igualmente num programa para assinalar o centenário da poeta, ao mesmo tempo que, desde o início do ano, promove palestras em escolas do bairro e de outros pontos de Maputo para divulgar a vida e obra de Noémia de Sousa.
Nascida em 20 de setembro de 1926, na Catembe, atual Maputo, Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares, mais conhecida por Noémia de Sousa, foi a primeira mulher negra a publicar poesia em Moçambique, fazendo da escrita uma forma de resistência ao colonialismo e à repressão da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE).
Apesar de ter produzido a maior parte da sua obra entre 1948 e 1951, os seus textos permaneceram dispersos por jornais e revistas, sendo reunidos apenas em 2001 no livro Sangue Negro, por iniciativa da Associação dos Escritores Moçambicanos.
Noémia de Sousa morreu em 04 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.
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