Mineração ilegal matou pelo menos nove pessoas em três dias no centro de Moçambique

Maputo, 11 set 2026 (Lusa) – Pelo menos nove pessoas morreram em três dias devido a desabamentos de terras associados à mineração ilegal no distrito de Vanduzi, província de Manica, centro de Moçambique, disse hoje à Lusa o administrador local.

O administrador daquele distrito, Armindo Canhenze, disse que seis pessoas morreram na madrugada de quinta-feira por desabamento de terra numa zona de mineração ilegal conhecida como “seis carros”, duas perderam a viva na quarta-feira e uma na terça-feira, também numa área de exploração mineira na mesma província.

“Ao invés de entrar cinco [em] `seis carros´[na zona de exploração mineira], acabam entrando três mil pessoas, duas mil pessoas. Então o número é maior, já não há disciplina, já não há regra”, disse o administrador, explicando que a concentração de garimpeiros aumenta o risco de desabamento do terreno.

Segundo Armindo Canhenze, nessa área de exploração, a procura de ouro levou ao aumento progressivo da área escavada, que atualmente tem cerca de 20 metros de profundidade e 25 metros de diâmetro.

A escavação começou com cerca de meio metro de profundidade, após ter sido descoberto ouro no local, tendo a informação atraído sucessivamente mais garimpeiros. O administrador disse que, durante o período chuvoso, a entrada de centenas ou milhares de pessoas fragiliza o terreno e aumenta o risco de soterramento.

A morte das seis pessoas na quinta-feira tinha sido confirmada à Lusa pela Polícia da República de Moçambique (PRM), que indicou que as vítimas morreram na sequência de um desabamento de terras, sem registo de feridos.

O porta-voz da PRM em Manica, Mouzinho Manasse, explicou que a reduzida visibilidade durante a noite dificulta a fiscalização das zonas de exploração mineira.

“Os desabamentos que têm vindo a acontecer ocorrem normalmente entre a meia-noite e as três horas da madrugada, num período em que a visibilidade é bastante reduzida”, afirmou.

As autoridades estão a preparar uma escavadora para tapar a cova e pretendem manter uma força policial no local para impedir novas entradas, segundo Canhenze, que disse que os corpos das vítimas já foram retirados e entregues às famílias.

O administrador acrescentou que as autoridades estão a cumprir o decreto que suspende a atividade mineira e já organizaram seis cooperativas, tendo submetido documentação para uma eventual retoma da mineração nos termos previstos pelas autoridades.

A situação ocorre numa altura em que as autoridades moçambicanas têm manifestado preocupação com a mineração ilegal e descontrolada em Manica, devido aos riscos para as comunidades, aos impactos ambientais e à exploração ilegal de recursos minerais.

Em julho, a Procuradoria-Geral da República (PGR) alertou para a presença de menores em atividades de mineração ilegal em Manica, após identificar cerca de 900 pontos de escavação onde trabalhavam várias pessoas, incluindo menores de 15 anos.

Também em junho, a Câmara de Minas de Moçambique advertiu para os problemas associados à mineração descontrolada na província e defendeu uma maior coordenação entre instituições públicas e privadas, numa altura em que Manica regista a descoberta de novos minerais críticos.

Em 2025, o Governo suspendeu licenças de empresas mineiras devido a irregularidades ambientais, incluindo a ausência de planos de recuperação de solos e de sistemas de contenção de resíduos, após um relatório das Forças de Defesa e Segurança apontar para uma “mineração descontrolada” na província.

Entretanto, segundo informação atualizada pelo Governo moçambicano em agosto último, já foi autorizada a retoma da atividade de 30 das 41 empresas mineiras suspensas em Manica, após estas cumprirem requisitos ambientais e normas de mineração, estando as restantes em avaliação.

 

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