Morreu Emma Bonino, que liderou a campanha para legalizar o aborto em Itália

Roma, 11 set 2026 (Lusa) – A ativista italiana Emma Bonino, conhecida por liderar campanhas que legalizaram o aborto e o divórcio na década de 1970 em Itália, país predominantemente católico e sujeito às objeções do Vaticano, faleceu, foi hoje anunciado.

O anúncio da sua morte, aos 78 anos, foi avançado pelo seu partido, o Più Europa (Mais Europa).

“A sua vida foi uma longa luta contra tudo o que nega a liberdade: contra o aborto clandestino, a fome mundial, o domínio da política partidária, a mutilação genital feminina, a justiça punitiva, o genocídio e todas as formas de autoritarismo”, recordou o partido.

Envolvida em inúmeras lutas, desde o direito ao divórcio ao direito ao aborto, Emma Bonino foi membro do Partido Radical Italiano (de esquerda) e uma figura respeitada em todo o espetro político italiano.

“Durante décadas, Emma Bonino foi uma voz importante e reconhecida na política italiana, defendendo as suas ideias com determinação. Os nossos percursos e sensibilidades eram muito diferentes, mas isso nunca me impediu de reconhecer a sua influência e papel na vida pública da nossa nação”, afirmou a primeira-ministra, Giorgia Meloni, numa mensagem publicada nas redes sociais.

Embora seja mais conhecida pelo seu ativismo em prol dos direitos das mulheres, Emma Bonino foi também ministra dos Negócios Estrangeiros e comissária europeia, com as pastas da Política do Consumidor e Pescas.

“A Europa pela qual ela lutou sentirá a sua falta”, reagiu a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola, destacando como Bonino “nunca esperou que o mundo estivesse preparado” para defender o que achava correto.

“Ela escolheu sempre seguir em frente, mostrando o caminho aos outros”, disse, garantindo que “é assim que será recordada em Itália e em Bruxelas”.

Nascida em 1948 numa quinta na pequena cidade de Bra, no noroeste de Itália, licenciou-se em línguas e literaturas estrangeiras pela Universidade Bocconi, em Milão, e mais tarde aderiu ao Partido Radical.

Este foi o início de uma paixão política que duraria toda a vida e que, segundo a própria, começou graças a um ginecologista.

Acreditando ser infértil, Emma Bonino engravidou aos 27 anos.

Decidiu abortar, declarando numa entrevista de 2023: “Na minha vida, demonstrei muita coragem, mas não a coragem de ser mãe”.

Naquela época, o aborto em Itália era ilegal, difícil, dispendioso e humilhante.

“A humilhação foi tão intensa que disse a mim mesma: ‘Nunca mais, a ninguém'”, contou.

Durante esse período, Emma Bonino conheceu Adele Faccio, ativista dos direitos das mulheres e figura proeminente do Partido Radical, e juntou-se à campanha pela legalização do aborto.

Em 1975, fundou o Centro de Informação, Esterilização e Aborto, antes de se candidatar ao parlamento e ser eleita deputada pelo Partido Radical, em 1976.

O aborto foi finalmente legalizado em Itália em 1978.

Mesmo depois de o partido Radical ter perdido força, Bonino manteve-se uma figura política importante e defensora dos direitos humanos ativa em Itália durante mais de cinco décadas, tendo fundado a organização Hands Off Cain, que luta contra a pena de morte.

Candidatou-se à presidência em 1999, mas não conseguiu tornar-se a primeira mulher presidente de Itália.

É conhecida pelas gerações mais jovens como uma comentadora política requisitada, que aparecia frequentemente na televisão italiana com sagacidade e perceções incisivas.

Após um diagnóstico de cancro, em 2015, passou a aparecer sempre em público com lenços coloridos na cabeça.

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