
Maputo, 10 set 2026 (Lusa) – Elementos associados ao grupo extremista Estado Islâmico reivindicaram hoje o ataque na Coutada de Marangira, na Reserva Especial do Niassa, norte do Moçambique, que destruiu o acampamento turístico associado ao treinador de futebol luso-moçambicano Carlos Queiroz.
A reivindicação, feita através dos canais de propaganda do Estado Islâmico, refere que o ataque aconteceu na quinta-feira, com os elementos do grupo, que opera a partir da província vizinha de Cabo Delgado, a incendiarem um posto da polícia “com armas automáticas”, o que “resultou em ferimentos num elemento policial e na fuga dos restantes”.
Durante o ataque, relata-se na reivindicação, foram ainda incendiados em edifício governamental, uma igreja católica veículos e residências, além dos equipamentos associados ao acampamento de turismo e safaris de Carlos Queiroz, com prejuízos já estimados em 3,5 milhões de dólares (três milhões de euros).
A incursão armada de quinta-feira passada à Coutada de Marangira, na Reserva Especial do Niassa provocou pelo menos um morto, a deslocação de 2.700 pessoas, além da destruição de infraestruturas turísticas e o rapto de 11 pessoas, segundo as autoridades moçambicanas.
As autoridades moçambicanas reforçaram nos últimos dias a segurança na Coutada de Marangira, conforme avançou o chefe de relações públicas da Polícia da República de Moçambique (PRM) na província do Niassa, Osvaldo Mahando.
“As nossas forças policiais e as demais forças de defesa e segurança continuam empenhadas em garantir que haja circulação de pessoas e bens e reforçar a segurança na zona do ataque e da província em geral”, disse.
Segundo a polícia, as populações que se haviam refugiado em povoados vizinhos encontram-se em segurança e já começaram a regressar às zonas de origem com o acompanhamento das forças policiais no local.
O porta-voz da PRM naquela província acrescentou que duas viaturas antes roubadas já foram recuperadas, mas as 11 pessoas raptadas continuam desaparecidas, com a polícia a prometer intensificar as buscas.
“Neste momento a situação é calma, as populações voltaram aos seus locais de origem, há este movimento de regresso a locais de origem, as nossas forças continuam empenhadas e a todo o terreno a garantir que esta reposição da ordem pública continue e prevaleça nos tempos que se seguem”, disse Osvaldo Mahando.
As autoridades moçambicanas apontaram antes que os atacantes terão partido da vizinha província de Cabo Delgado, rica em gás e epicentro da insurgência armada que afeta o norte do país desde 2017.
O analista Peter Bofin considerou que o ataque insurgente que destruiu um acampamento turístico associado ao treinador luso-moçambicano Carlos Queiroz, atualmente selecionador do Gana, visou o reabastecimento logístico, impacto económico e propaganda internacional.
“Este tipo de ataque tem múltiplos objetivos. Em primeiro lugar, é uma forma de reabastecimento, alimentos, algumas armas e outro equipamento terão sido capturados. Pelo menos duas viaturas também foram levadas, apesar de posteriormente terem sido abandonadas”, explicou o analista sénior para a África austral da organização Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês).
Desde 2017, a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhão de deslocados, tendo registado desde 2025 incursões esporádicas para as províncias vizinhas de Niassa e Nampula.
Dados divulgados recentemente pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) indicam que a violência armada em Cabo Delgado provocou 1.401 deslocados em agosto e que os incidentes de conflito aumentaram 10% no primeiro semestre deste ano face ao período homólogo.
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