Juiz do Supremo brasileiro reverte afastamento de dirigentes da Polícia Federal

Brasília 09 set 2026 (Lusa) — O juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil Flávio Dino reintegrou hoje dirigentes da Polícia Federal (PF), um dia após serem afastados dos cargos, no âmbito de uma crise institucional entre juízes do próprio tribunal.

Na terça-feira, o juiz André Mendonça, do STF, afastou dos cargos o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência da corporação, Leandro Almada, sob acusação de que ele próprio foi alvo de “monitoramento sistemático” e “ilícito”.

Mendonça afastou os dirigentes após a PF enviar ao juiz Alexandre de Moraes, também do STF, relatórios internos da corporação que o citavam, e classificados pela própria polícia como documentos sem prova probatória.

Moraes, no entanto, usou esses relatórios para pedir ao presidente do STF uma investigação contra Mendonça por abuso de autoridade e improbidade administrativa na condução de dois inquéritos de corrupção que envolvem vários políticos.

Os dois juízes entraram numa guerra interna na semana passada, após Mendonça retirar o sigilo de uma investigação que expunha Moraes, sobre relações suspeitas e comprometedoras com Daniel Vorcaro, do banco Master, arguido por fraude milionária no sistema financeiro.

Ao reverter o afastamento dos dirigentes da Polícia Federal, Flávio Dino endereçou vários recados a André Mendonça, entre eles o de que o colega proferiu a decisão “em causa própria”.

Na decisão, consultada pela Lusa, Dino destacou que o diretor-geral da PF “limitou-se a cumprir decisões judiciais” e determinações expedidas por Moraes.

Dino criticou ainda o facto de Mendonça ter ordenado a suspensão de relatórios dos servicos de inteligência, além do afastamento dos dirigentes, o que, na sua avaliação, comprometia investigações importantes em curso.

Nesse sentido, cita, por exemplo, as investigações do filme “Dark Horse”, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, que contou com financiamento de Vorcaro e com recursos públicos via emendas parlamentares.

“Não se afirma o carácter doloso da conduta de qualquer agente público, mas é evidente que, objetivamente, a interrupção dos trabalhos de direção de investigações policiais interessa, sobretudo, aos investigados”, escreveu.

Flávio Dino criticou ainda o colega ao dizer que tal decisão deve ser levada ao plenário do STF – atualmente com 10 juízes – e também pelo facto de Mendonça ter atendido ao pedido do Novo, partido que tem candidato próprio na corrida ao Palácio do Planalto (presidência brasileira). 

O Presidente brasileiro, Lula da Silva, quebrou hoje o silêncio sobre o afastamento de Rodrigues e Almada, e usou as redes sociais para dizer que “o povo brasileiro precisa de explicações e medidas imediatas para enfrentar a crise institucional que tomou conta do Poder Judiciário”.

“Se faz necessário mais transparência e não vazamentos seletivos que impactam a disputa eleitoral”, escreveu.

“Por isso, é urgente a quebra completa do sigilo das investigações de todos os envolvidos no caso Master, seja quem for, doa a quem doer. O Brasil precisa saber a verdade”, concluiu.

Na terça-feira, a imprensa brasileira reportou que o afastamento dos dirigentes da PF por Mendonça puxava o Palácio do Planalto para o centro da crise do Supremo brasileiro, uma vez que forçava o Governo Lula a pronunciar-se sobre o tema.

Segundo a Folha de S. Paulo, aliados de Lula avaliam que André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro ao Supremo, tem atuado para beneficiar Flávio Bolsonaro na corrida eleitoral, e com isso, cria armadilhas ao Governo federal.

A medida de Mendonça, segundo o jornal, teria a intenção de pressionar o presidente do Senado a colocar em votação pedidos de destituição de Alexandre de Moraes, alvo de ataques dos bolsonaristas e da oposição.

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, responsável pela articulação política do Governo com os demais Poderes, usou as redes sociais na terça-feira para dizer que a medida de Mendonça tem cunho eleitoral, e que o juiz “fez uma intromissão que não lhe cabe”.

Diante da crise institucional sem precedentes, o presidente do STF brasileiro, Edson Fachin, voltou a pronunciar-se na terça-feira dizendo que a “justiça brasileira não faltará à legalidade constitucional”.

MYMA // MLL

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