
Lisboa, 02 set 2026 (Lusa) – As presidentes das juntas de Santo António e da Misericórdia concordam que a segurança deve prevalecer na reabertura dos ascensores de Lisboa, após o acidente com o elevador da Glória, mas divergem na avaliação das consequências e resposta institucional.
Na véspera de se assinalar um ano desde o acidente que levou ao encerramento do Ascensor da Glória e à suspensão da operação dos restantes elevadores históricos para avaliação de segurança — Bica e Lavra – as juntas de freguesia diretamente afetadas reconhecem a importância da medida, mas alertam para as consequências que continuam a sentir-se nos bairros.
Para Filipa Veiga, presidente da Junta de Freguesia de Santo António (PSD), a principal marca deixada pelo encerramento é emocional. Moradora da zona há mais de 15 anos, recorda a ligação pessoal ao elevador da Glória e descreve a sua ausência como uma “mágoa muito grande”.
“Faz parte da nossa história”, afirmou, lembrando os momentos vividos junto ao elevador com a famÃlia, sobretudo com os filhos. Segundo a autarca, a tragédia que motivou a suspensão da circulação alterou a forma como os residentes olham para aquele espaço.
“É difÃcil olhar para o elevador sem ter sempre este pensamento da tragédia. Há um vazio porque já não temos o Amarelinho, como é óbvio, mas é acima de tudo uma mágoa porque foi uma tragédia e é difÃcil olhar para o elevador sem ter sempre este pensamento da tragédia, que vai durar algumas gerações, como se costuma dizer”, recordou.
Apesar disso, considera que o impacto direto na mobilidade dos moradores foi relativamente reduzido, uma vez que o ascensor era utilizado principalmente por turistas. Como alternativa, destaca o reforço da carreira de bairro 19B, adaptada para servir as zonas abrangidas pelos ascensores da Glória e do Lavra, ambos pertencentes à sua freguesia.
A presidente de Santo António evita ainda crÃticas à demora na reabertura, defendendo que as decisões devem basear-se exclusivamente em critérios técnicos.
“Prefiro que me faça falta e não ter mais acidentes”, afirmou, acrescentando: “se me dizem que é para aguardar, é para aguardarmos.”
Já Carla Almeida, presidente da Junta de Freguesia da Misericórdia (PS), reconhece igualmente que o acidente foi “um acontecimento muito grave” e que os equipamentos só devem voltar a funcionar quando estiverem reunidas todas as condições de segurança. No entanto, considera que o impacto na freguesia tem sido significativo e vai muito além da dimensão turÃstica.
“O elevador da Glória e o elevador da Bica não são apenas elementos do património da cidade ou atrações turÃsticas. São meios de transporte utilizados diariamente por moradores, trabalhadores, comerciantes e visitantes”, sublinhou.
Segundo a autarca, a situação é particularmente sensÃvel na Bica, onde muitos residentes idosos e pessoas com mobilidade condicionada dependiam do ascensor para as deslocações do quotidiano.
“A sua ausência prolongada traduz-se em dificuldades reais de acessibilidade e autonomia”, referiu.
A responsável admitiu que a Carris implementou soluções alternativas de transporte para minimizar os constrangimentos, mas afirmou que a principal preocupação atualmente prende-se com a ausência de informação sobre os prazos de reabertura.
“A questão hoje já não é apenas a segurança. Continua sem existir informação clara e atualizada sobre os prazos previstos para a reabertura”, salientou.
Em junho, a presidente da Junta da Misericórdia enviou um ofÃcio ao presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, a solicitar informação atualizada sobre o estado das intervenções em curso nos ascensores da Bica e da Glória e sobre as previsões para o regresso ao serviço.
Segundo explicou, a incompreensão dos moradores não resulta do encerramento em si, mas da falta de previsibilidade.
“As pessoas compreendem a necessidade de encerrar os elevadores por razões de segurança. O que já não compreendem é continuarem sem saber quando voltarão a funcionar”, apontou Carla Almeida.
Na sequência do descarrilamento do elevador da Glória, que ocorreu em 03 de setembro de 2025 e provocou 16 mortes (quatro portugueses e os restantes estrangeiros de várias nacionalidades) e 24 feridos, a Câmara Municipal de Lisboa suspendeu “de imediato” o funcionamento dos equipamentos históricos da Carris para serem inspecionados, nomeadamente os ascensores da Bica e do Lavra, o elevador de Santa Junta e o funicular da Graça, que reabriu em 30 de abril.
A reabertura dos ascensores continua sem data anunciada, mantendo a expectativa de moradores, comerciantes e utilizadores destes equipamentos emblemáticos da cidade de Lisboa.
O elevador da Glória liga os Restauradores ao Jardim de São Pedro de Alcântara, no Bairro Alto, num percurso de cerca de 265 metros e é muito procurado por turistas. Já o ascensor da Bica liga a Rua de São Paulo, no Cais do Sodré ao Largo do Calhariz, no Bairro Alto, num percurso de 283 metros.
O ascensor do Lavra, o mais antigo da cidade de Lisboa, liga o Largo da Anunciada, junto à Avenida da Liberdade e ao Coliseu, às imediações do Jardim do Torel e do Campo Mártires da Pátria, numa extensão de 188 metros.
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