
Bruxelas, 04 ago 2026 (Lusa) — O comissário europeu para as Migrações defendeu hoje que a União Europeia (UE) foi posta à prova durante a crise migratória em Ceuta, mas “passou o teste”, apesar de admitir que deve agora retirar conclusões sobre o sucedido.
Em conferência de imprensa após uma reunião por videoconferência dos ministros da Administração Interna da UE, Magnus Brunner considerou que a crise na fronteira de Ceuta foi um “teste, por um lado, à resiliência europeia e, por outro, à segurança das fronteiras externas” do bloco.
“Por agora, penso que a Europa passou claramente este teste. As pessoas não conseguiram entrar no espaço Schengen e a segurança na fronteira foi restabelecida rapidamente”, defendeu.
Magnus Brunner frisou, contudo, que o essencial agora é que a “UE aja de maneira unida e retire as conclusões devidas destes acontecimentos”.
Entre essas lições, o comissário defendeu que é necessário que os Estados-membros “implementem plenamente” o Pacto para as Migrações e Asilo e as novas regras de retorno do bloco, que entraram recentemente em vigor, designadamente a nível de controlos fronteiriços.
Magnus Brunner insistiu que essas novas medidas estão a permitir regular os fluxos migratórios e a reduzir as entradas ilegais no bloco europeu para níveis históricos.
“A imigração ilegal diminuiu cerca de 55% nos últimos dois anos — quase 40% até agora este ano. E isto fez com que pouco mais de 49 mil migrantes tenham entrado ilegalmente na UE este ano, quase tanto como os que chegaram às ilhas gregas numa única semana em outubro de 2015”, afirmou.
Reforçando que há mais de uma década que a Europa não tem “tanto controlo sobre a imigração ilegal”, o comissário reconheceu, no entanto, que os acontecimentos de Ceuta mostram que as “imagens mais dramáticas acabam por ter mais impacto que as melhores estatísticas”.
“E isso também é outra das lições que precisa de ser retirada”, admitiu.
O comissário indicou ainda que é necessário reforçar as parcerias com países terceiros, assegurar “retornos rápidos”, fortalecer as fronteiras do bloco, introduzir “sistemas de alerta precoce” e “desmantelar redes de tráfico de migrantes”.
Depois de, nos últimos dias, vários Estados-membros terem criticado a política migratória de Espanha — com Itália, Dinamarca e Finlândia a pedirem mesmo a suspensão do país do espaço europeu de livre circulação Schengen –, Magnus Brunner defendeu perante os jornalistas a resposta de Madrid perante a crise de Ceuta.
“A Espanha voltou hoje a confirmar que praticamente todos os migrantes que entraram em Ceuta já regressaram, nenhum chegou a Espanha continental ou à Europa. A integridade do espaço Schengen foi preservada. Quero reconhecer isso claramente e agradecer a Espanha e à administração de Ceuta por terem restabelecido a ordem”, elogiou o representante.
Questionado sobre se a Comissão Europeia considera que havia razões proporcionais e necessárias para a Itália decidir suspender o espaço Schengen com Espanha, Magnus Brunner referiu que isso ainda vai ser avaliado, apesar de sugerir que percebe a decisão de Roma.
“Vamos ter de avaliar, a situação mudou nos últimos dias e agora há mais clareza sobre o que aconteceu. Mas percebo que, tendo em conta as imagens que vimos, que cidadãos tenham ficado preocupados e que alguns Estados-membros tenham escrito cartas e tomado opções”, referiu.
Sobre se considera que Marrocos contribuiu para a crise em Ceuta, o comissário nunca quis responder diretamente, frisando que as autoridades espanholas estão a investigar essa matéria e optando por responsabilizar, nesta fase, os “traficantes de seres humanos e facilitadores da imigração ilegal”.
Interrogado se partilha as críticas que alguns Estados-membros têm feito à recente decisão de Espanha de regularizar 500 mil imigrantes, com várias capitais europeias a sugerirem que pode atuar como um chamariz para a imigração ilegal, o comissário disse não ver “qualquer ligação direta” entre essa medida e a situação em Ceuta.
“Mas acho que essa regularização não é um bom sinal”, afirmou ainda.
Cerca de 72.000 pessoas entraram na cidade autónoma espanhola de Ceuta, situada no norte de África, em 24 horas na semana passada e 70.000 já voltaram a Marrocos, segundo dados atualizados pelas autoridades de Espanha.
Pelo menos 75 pessoas morreram a tentar chegar a Ceuta a nado.
Ceuta, um pequeno território de 80.000 habitantes situado no extremo norte de Marrocos, banhado pelo estreito de Gibraltar, é uma das duas fronteiras terrestres entre África e a Europa, juntamente com o outro enclave espanhol de Melilla.
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