Jovens do norte e sul do país rumam a Santiago porque caminhar “é uma metáfora da vida”

San Amaro, Espanha, 25 jul 2026 (Lusa) — A propósito do Dia de Santiago de Compostela e a dois dias de chegar à cidade que é a capital da região da Galiza, cerca de 150 jovens peregrinos fizeram uma pausa no caminho para comer, conviver e cantar.

Estudantes, a partir do 9.º ano, nos colégios do Amor de Deus, em Cascais, distrito de Lisboa, e Nossa Senhora de Lourdes, no Porto, participam num projeto que existe desde 2003 a partir da ideia de que “a escola não pode viver só dentro dos muros de edifício”.

Para António Filipe Barbosa, presidente da Fundação Escolas do Amor de Deus, que gere os dois colégios, “o caminho é uma metáfora da vida”.

A experiência proporciona o “desenvolvimento de dimensões muito importantes que se foram perdendo no conceito de cidade em que vivemos e em que andamos sempre a correr”, diz

Citando os exemplos do Caminho de Santiago, feito em honra do apóstolo Santiago Maior, padroeiro de Espanha e da Galiza, da peregrinação a Fátima e do Islão a Meca, o coordenador conclui que uma peregrinação faz-se “sempre a lugares muito significativos para as pessoas e isto faz com que a experiência da peregrinação se distinga de uma caminhada”, no sentido em que permite uma “dimensão do transcendente”.

“Temos de gerir o nosso cansaço, mas também o cansaço dos outros, e isto é uma aprendizagem muito importante na vida”, conclui, algo com que Benedita e Beatriz, estudantes de 20 anos no Porto, concordam “a 100 por cento”.

“O mais desafiante é a paciência”, conta Benedita, explicando que “são muitos miúdos, alguns com muita energia, outros com muito pouca, com ritmos muito diferentes, e tentar fazê-los andar todos e não perder o ritmo é bastante complicado.”

Para Beatriz, já no quarto ano em que se voluntaria enquanto monitora de um grupo de jovens, “é um desafio tentar animá-los, porque são muitas horas a caminhar”.

“Levantamo-nos muito cedo, são ritmos muito diferentes, e é sempre preciso haver alguém a puxar por músicas, a empurrá-los para a frente e a mantê-los sempre com energia para continuar”, conta.

Estudante de 21 anos em Lisboa e natural de Cascais, Rui Marques considera que, ao nível físico, tem aprendido sobretudo a fazer sacrifícios para continuar com caminhadas, enquanto no plano mental descobriu a importância da introspeção.

“Aprendemos sobretudo a sair da nossa rotina, a parar e a olhar para dentro e a tentar perceber o que está errado e como vamos resolver os nossos problemas, porque se não o conseguirmos fazer, é muito difícil levar uma vida normal”, diz à Lusa, concluindo que esta “é principalmente uma caminhada interior.”

Prestes a retomar o caminho, o coordenador do projeto concorda com o estudante e lembra: “A ideia de lentidão, de que o caminho demora o tempo necessário e requer os passos necessários para chegarmos de uma etapa à outra, proporciona-nos um olhar diferente sobre a realidade”.

“Permite-nos também termos tempo para um encontro connosco”, confidencia, a 60 quilómetros de Santiago de Compostela e com paciência para continuar.

O caminho destes estudantes começou na terça-feira, em Valença, no distrito de Viana do Castelo, e conta com seis etapas, sendo que os últimos cerca de 25 quilómetros — de Padrón a Santiago de Compostela — culminarão com a entrada na Praça do Obradoiro, a principal da cidade galega e ponto de encontro dos peregrinos.

*** André Sá (texto e vídeo) e José Coelho (fotos), da agência Lusa ***

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