
Maputo, 09 jul 2026 (Lusa) — Quase dois milhões de moçambicanos estão em risco de necessitar de assistência alimentar entre dezembro e janeiro, segundo relatório da FEWS NET, que aponta o conflito armado, efeitos das cheias e condições climáticas adversas como fatores de risco.
Na sua mais recente projeção, divulgada hoje, a Famine Early Warning Systems Network (FEWS NET) estima que entre 1,5 e 1,99 milhões de pessoas precisarão de apoio alimentar nesse perÃodo devido a reservas alimentares abaixo da média após uma fraca campanha agrÃcola de 2026 e à s perturbações dos meios de subsistência causadas pela insurgência em partes das provÃncias de Cabo Delgado e Nampula.
A organização, uma rede internacional de alerta precoce para crises alimentares financiada pelo Governo dos Estados Unidos, responsável pela monitorização e projeção de situações de insegurança alimentar e fome em diversos paÃses, identifica o norte e o sul de Moçambique como as áreas de maior preocupação.
Segundo a análise, apesar da atual época de colheitas, as zonas afetadas pela insurgência armada em Cabo Delgado e no norte de Nampula deverão manter-se em situação de “Crise” (IPC Fase 3) pelo menos até janeiro de 2027, devido à atividade continuada de grupos armados, deslocações populacionais e limitações no acesso a terras agrÃcolas, mercados e fontes de rendimento.
A FEWS NET recorda que, entre abril e junho, grupos armados intensificaram ataques nos distritos de Nangade e Macomia, expandindo posteriormente as operações para Chiúre, Ancuabe e Montepuez, distritos de Cabo Delgado.
Citando dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o relatório indica que mais de 23 mil pessoas foram deslocadas até meados de junho nos distritos de Ancuabe, Montepuez e Chiúre.
No centro e sul do paÃs, a organização prevê uma melhoria temporária na segurança alimentar a partir de julho, com a passagem de algumas áreas de “Crise” para “Stress” alimentar (IPC Fase 2), graças à s colheitas da segunda época agrÃcola, à assistência pós-cheias e aos rendimentos sazonais. Ainda assim, alerta que parte desses distritos poderá regressar a uma situação de crise entre outubro e janeiro, quando os alimentos produzidos se esgotarem e aumentar a dependência do mercado.
As cheias registadas em janeiro afetaram mais de 700 mil pessoas e danificaram cerca de 440 mil hectares de terras agrÃcolas nas provÃncias de Maputo, Gaza e Sofala. Entre fevereiro e março, perÃodos prolongados de seca e novos episódios de chuva intensa agravaram os prejuÃzos nas culturas e no gado no paÃs.
No relatório acrescenta-se que a recuperação agrÃcola permanece lenta devido à degradação dos solos, alagamentos prolongados e acesso limitado a sementes, fatores que atrasaram em mais de um mês as plantações e colheitas da segunda época agrÃcola.
A FEWS NET alerta ainda que o fenómeno El Niño já está em curso e deverá manter-se pelo menos até janeiro de 2027, prevendo um inÃcio tardio e abaixo da média da próxima época chuvosa no sul e centro de Moçambique, além de temperaturas acima do normal, condições que poderão reduzir a produção agrÃcola e as oportunidades de trabalho sazonal para as famÃlias mais pobres, situação agravada pelo aumento dos preços dos alimentos.
Segundo a organização, os preços do milho no sul do paÃs estavam em maio entre 25% e 60% acima da média dos últimos cinco anos, enquanto os preços do arroz se encontravam entre 20% e 40% acima da média. A inflação anual acelerou para 7,2% em maio, o valor mais elevado desde maio de 2023, impulsionada sobretudo pelo aumento dos preços dos combustÃveis e dos transportes.
Em maio, cerca de 180 mil pessoas receberam assistência alimentar humanitária, principalmente em Cabo Delgado e Gaza. Já as operações de resposta à s cheias tinham alcançado aproximadamente 300 mil pessoas nas provÃncias de Maputo, Gaza e Sofala até meados de junho.
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