
La Guaira, Venezuela, 07 jul 2026 (Lusa) — Para Carolina e filhas, pode ser a última vez que caminham pelos passeios hoje preenchidos com tendas e escombros, numa cidade em desespero e com uma população enfurecida com pilhagens dos militares após os terramotos que assolaram a Venezuela.
“Meninas, venham”. Carolina chama por Sayra, de 13 anos, e Yaira, com 9, que jogavam futebol com outras crianças num campo improvisado no parque de estacionamento de um Farmatodo (um grupo venezuelano de farmácias), em Playa Grande, La Guaira.
As filhas de Carolina receberam uma bola de futebol, por isso vão continuar a jogar mais tarde “com outros meninos que encontrem”, disse à Lusa Yaira, a mais pequena: “É que há muitos meninos por todo o lado, estão aqui a viver na rua.”
“Aposto que vêm resgatar-nos e vão levar-nos para… Para Paris, é o que acho, mãe”, diz Yaira, de mão dada com Carolina, enquanto a irmã traz na mão esquerda um saco de plástico branco com a bola de futebol que as crianças receberam de um grupo de voluntários.
“Todos os dias fazemos este caminho, para ver o que podemos trazer aos nossos vizinhos e seguimos para casa ao anoitecer, é quando as coisas se põem mais complicadas e não quero sujeitar as miúdas a isso”, disse à Lusa Carolina, aludindo à s pilhagens e agressões que tomaram os campos de deslocados que preenchem o que resta das ruas em Catia La Mar.
Esta famÃlia ainda pode dizer que tem casa, pelo menos uma delas. Carolina e o marido tinham construÃdo ao lado da antiga casa da mãe, “que estava desocupada há anos”.
Quando os terramotos assolaram a cidade costeira de Catia La Mar, a casa onde esta famÃlia venezuelana vivia estremeceu, primeiro, “logo vieram as fendas nas paredes e o teto começou a abrir”.
“Só tivemos tempo de ir a correr para casa da minha mãe, essa ficou de pé, caÃram meia dúzia de telhas. A nossa ficou completamente destruÃda, os quartos estavam no segundo andar e agora estão onde era a garagem”, disse à Lusa enquanto descrevia as divisões da moradia devoluta.
Desde 24 de junho que vivem nesta casa “sem água, nem luz” e tiveram de emparedar o portão para que não entrem assaltantes “durante a noite, mas é bom ter onde dormir”.
Enquanto caminham pelo que resta de Catia La Mar, Carolina e as filhas alcançam a escola de Yaira. “Só ficou ‘estragada’ uma sala de aulas, as outras estão boas, mas a diretora disse-nos que ainda não podemos voltar”, esclareceu à Lusa Yaira, que não larga a mão da mãe.
“Desde o dia 24 que não me larga a mão, nem à casa de banho posso ir, mas compreendo, qualquer som as remete para o que viveram”, contou a mãe, em tom de brincadeira, apontando para as tendas que circundam a escola.
“Nós tivemos muita sorte, todas estas crianças são colegas das minhas filhas, dois da turma da minha mais nova não sobreviveram e outros de outras salas estão desaparecidos”, acrescentou.
O destino de Catia La Mar é o mesmo de Caraballeda e de tantas outras cidades no estado de La Guaira, que foi dilacerado pelos terramotos de há duas semanas. Estas cidades vão desaparecer, pelo menos desaparecerão as versões “que as pessoas conheciam até hoje”.
“Tudo tem de ir abaixo, os edifÃcios que conhecÃamos, as ruas que caminhávamos, ficou tudo destruÃdo”, disse Carolina, completando que “o que não ficou não há maneira de restaurar”.
Ninguém quer pensar como é que vai ser o futuro, até porque no presente o tempo é precioso. Para uns — socorristas de vários paÃses e voluntários que para lá das suas capacidades agarram em pares de luvas rasgadas, picaretas velhas e o pouco material que encontram — cada minuto importa para conseguir resgatar sobreviventes, se ainda houver. A cada dia que nasce diminuem drasticamente as possibilidades de encontrarem alguém com vida.
A presença de abutres nos céus de Caracas e nas cidades plantadas à beira-mar não é incomum. Estas aves partilham os céus com as araras. O que é incomum é a quantidade que se vê nos céus.
“Já cheiraram a morte, pensamos que onde há mais a sobrevoar, há mais pessoas, o cheio a decomposição dos corpos deve ser maior aÔ, diz um bombeiro venezuelano que olha para o céu enquanto bebe água que dois voluntários distribuÃram.
Um homem com um boné azul com a bandeira da Venezuela, chinelos de plástico amarelos, um t-shirt cinzenta e calções cobertos de pó, rasgados no lado do bolso direito, estava sentado à porta de casa a segurar uma gaiola com duas araras amarelas e verdes, também cobertas pela camada de pó que se levantou quando os edifÃcios ruÃram.
O que restou desta casa foi apenas a parede da fachada, azul, com uma porta de madeira, queimada e inchada pela mistura de anos de sol e partÃculas de água do mar e que agora está coberta com o pó que resultou da queda dos edifÃcios.
Não quis dizer à Lusa o nome — “para quê? –, mas afirma que para onde quer que olhe desconhece as ruas, as pessoas, até as araras que lhe faziam companhia.
“As pessoas que agora dormem aqui em tendas não são vizinhos daqui, são sobreviventes que encontraram aqui local para dormir, no meio desta rua, que ainda se pode dizer que é uma rua. E as minhas araras agora só gritam, antes diziam palavras e entretinham-me, ficava horas a ouvi-las, agora não sei se estão a reproduzir os gritos das pessoas que ouviram”, lamenta.
Carolina vê um grupo de militares à distância e diz que sente “vergonha por eles”.
“Não só não fazem nada, como já os vimos a roubar”, completou, enquanto retirava o telemóvel do bolso para mostrar um vÃdeo que gravou, no qual a Lusa viu dois militares a levarem equipamentos eletrónicos de uma casa devoluta.
Carolina disse que “carregaram o que roubaram em carrinhas deles [do exército]”. Esta denúncia tem sido recorrente. Pelas redes sociais já são múltiplos os vÃdeos de cidadãos de La Guaira e voluntários a confrontarem os militares enquanto pilham casas que não ruÃram por completo, ou que procuram os cofres de famÃlias para retirar dinheiro.
“Até para fazer um trabalho de tradutora — sou professora de lÃnguas — tenho de fazer um pedido especial, mas eles vivem com total impunidade, ainda mais no meio de uma tragédia assim”, criticou, visivelmente consternada.
O sol vai baixando, “já é hora de regressar”. Carolina, Yaira e Sayra despediram-se com um “Dios bendiga al pueblo venezolano” (“Deus o abençoe o povo venezuelano”) e seguem caminho entre ruas que deixaram de conhecer, são só caminhos com escombros de um lado e do outro, o desespero e as lágrimas misturados com o som de pás e picaretas, e ocasionalmente uma retroescavadora.
A cada dia que passa, não só diminuem as chances de encontrar sobreviventes, as de encontrar o corpo de um familiar ou amigo para fazer o luto. É também um dia mais próximo do dia em que estas cidades deixarão de existir.
AFE //APN
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