
Macau, China, 03 jul 2026 (Lusa) — Dois académicos chineses alertaram, com base num estudo que fizeram, que a dependência de Macau do jogo trouxe ganhos económicos consideráveis ao território, mas representa “riscos estruturais” para a estabilidade financeira da cidade e da China continental.
Os investigadores Zhong Yun e Hu Zhouqin, do Instituto de Economia da Universidade de Jinan, acompanharam a evolução do setor desde a abertura das concessões em 2002 até ao presente, avaliando o seu papel na estratégia governamental de “diversificação económica adequada”.
O estudo, publicado na revista académica “Estudos na Área do Jogo e do Turismo Mundial” da Universidade Politécnica de Macau, conclui que, embora o jogo e o turismo tenham desempenhado um papel decisivo no crescimento económico, na acumulação fiscal e no desenvolvimento urbano, também geraram potenciais ameaças à segurança financeira nacional, sobretudo devido aos fluxos transfronteiriços de capitais.
Segundo o relatório, a indústria funcionou como motor de crescimento de Macau desde 2002, impulsionando a chegada de visitantes e apoiando a expansão de hotéis, restauração, comércio e serviços turísticos.
As receitas brutas do jogo subiram de cerca de 23,5 mil milhões de patacas (2,7 mil milhões de euros) em 2002 para 361,8 mil milhões de patacas (41,6 mil milhões de euros) em 2013, com o valor acrescentado do jogo a representar entre 45% e 60% do PIB durante muitos anos.
Entre 2010 e 2019, os impostos do jogo representaram entre 70% e 80% das receitas públicas, atingindo 88,12 mil milhões de patacas (10,1 mil milhões de euros) em 2024.
O emprego no setor passou de cerca de 23.500 trabalhadores em 2002 para 82.900 em 2025, com o total da população ativa a subir de 204.000 para 388.000.
No entanto, o estudo alerta que a “dominância esmagadora de uma única indústria” deixou a economia vulnerável.
Os investigadores apontaram que o setor hoteleiro aumentou a sua quota no PIB de 1,6% em 2003 para 5,9% em 2024, mas as infraestruturas não ligadas ao jogo funcionam sobretudo como complemento ao negócio central dos casinos.
A pandemia expôs essa fragilidade: o PIB caiu de 444,1 mil milhões de patacas (51,0 mil milhões de euros) em 2019 para 202,0 mil milhões (23,2 mil milhões de euros) em 2020.
“Formou-se uma profunda dependência em termos de receitas fiscais, estrutura laboral e ecossistema industrial”, afirmaram os autores.
Em 2025, os trabalhadores de casino recebiam salários médios de 28.020 patacas (3.200 euros), acima da mediana, desincentivando a mobilidade para outros setores.
Segundo o documento, esta estrutura laboral cria um bloqueio de talento que limita o desenvolvimento de indústrias emergentes como tecnologia, finanças e saúde.
Mais crítico, os investigadores alertaram que a dependência do jogo como ameaça à segurança financeira da China, considerando que a natureza intensiva em numerário das atividades de jogo pode ser “explorada para branqueamento de capitais”, pois os residentes do continente recorrem a “bancos clandestinos e canais ilegais para transferir fundos”, contornando os controlos cambiais.
Ao mesmo tempo, os académicos alertaram que as perdas de empresas ou gestores em apostas podem desencadear falências, afetando cadeias industriais e sistemas sociais.
O estudo sublinha que Macau depende fortemente de visitantes da China continental, que representam mais de 70% dos turistas, tornando a estabilidade económica do território estreitamente ligada às políticas e condições do continente.
Os seis operadores de casinos enfrentam agora pressão para expandir ofertas não ligadas ao jogo, no âmbito da estratégia governamental “1+4”, que promove saúde, tecnologia, convenções e finanças.
O estudo reconhece que a atratividade turística de Macau está a diversificar-se com património cultural, eventos internacionais, desporto e lazer, mas adverte que “o jogo continuará a ser a principal fonte de receitas no curto e médio prazo”.
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